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Escrito por Duilio Ferronato às 12h22
Sempre tive um certo amor irracional pela Folha desde 1980, quando fui com um amigo entregar o currículo dele no RH. Pegamos o ônibus lá em Guarulhos, onde eu morei até 1981, descemos na estação Ponte Pequena do metrô e fomos até a estação São Bento, de lá fomos andando até a Folha na Al. Barão de Limeira (ainda não existia a estação Santa Cecília). Foi amor a primeira vista. Logo na entrada do prédio tinha uma grande impressora (ainda é meio assim) que ficava rodando o tempo todo - hoje o jornal é impresso num outro lugar e raramente se vê a máquina rodando - mas aquilo me impressionou tanto que talvez o maior sonho da minha vida tenha sido trabalhar na Folha. Sempre gostei do jornal e sempre quis fazer parte. Agora, depois de alguns anos de amor incondicional, estou indo para o R7.
Acho que toda vez que passar pela Barão de Limeira vou ficar bem triste, como fiquei no dia em que recebi um e-mail estranho da Folha. A casa nova vai ser muito bacana e estou sendo muito bem tratado por lá.
Escrito por Duilio Ferronato às 11h02
Meu blog vai mudar para uma casa maior, mas enquanto a nova casa não fica pronta eu vou ficar acomodado aqui.
Escrito por Duilio Ferronato às 10h44
Luiz Cachaça
Um moço de 22 anos, magrinho e bem branco. Cansou de contar a mesma história: o pai largou a mãe sem nada e acabou gastando tudo com outras mulheres. É a mesma história depois que bebe – e ele bebe sempre – mas quando digo sempre: é sempre mesmo! Estudou gastronomia numa faculdade meia-boca em Curitiba. Não sabe nem a diferença entre carboidratos e proteínas. Quando fala português, não usa plural e dá até uma pontada lá no fundo do ouvido ouvir as conversas dele. É um pouco homofóbico, mas tem jeito e comportamento de gay. Talvez ainda não seja, mas tudo indica que será. Decidiu trabalhar num navio porque um professor da faculdade dizia que para realmente se aprender a ser cozinheiro é preciso trabalhar a bordo. E ele veio. Um pouco antes de vir, terminou o namoro de quase 3 anos. Uma gostosa, segundo ele, de 29 anos. Assim que ele embarcou, ela ligou dizendo que estava grávida e que eles teriam que casar. Ele adorou a notícia, já que sempre sonhou em casar e ter filhos. Outro dia, até perguntou para uns colegas da cozinha se eles achavam que ele seria um bom pai, mas é claro que todos disseram que não. Como alguém pode ser um bom pai se briga com a mulher ainda grávida. Ah, sim. Ele consegue brigar com a namorada mesmo estando bem longe. Ninguém entende como é isso ainda, mas pelo menos uma vez por semana ele chega dizendo que passou umas 2 horas no telefone brigando com a mulher. E brigar ele sabe bem, já que conseguiu brigar com quase todos os colegas de trabalho. Brigou até mesmo com o sujeito que trabalha do outro lado da cozinha e não tem nada a ver com ele. Não se sabe também como ele conseguiu isso, mas conseguiu. Os brasileiros o apelidaram de Luiz Cachaça por causa das histórias chatas que ele conta enquanto está bêbado e os filipinos o apelidaram de underwear (roupa de baixo) porque ele usa uma bermuda por baixo da calça e nunca troca. Podem acreditar: ele nunca trocou a bermuda. Mesmo para dormir, para passear, para ir trabalhar e para qualquer outra coisa. É sempre a mesma bermuda. Não é fácil de acreditar numa história dessas, mas o mais difícil de acreditar é que durante 4 meses ele nunca trocou a roupa de cama. Credo! Isso mesmo: ele nem sabia e nem sabe ainda onde fica a lavandeira das roupas de cama. A lavanderia dos uniformes ele descobriu forçado porque o chefe dele um dia exigiu que ele fosse lavar todos os uniformes. O colega de cabine dele sofre muito com o cheiro dele. Ele tem chulé, come na cama, não escova direito os dentes e ainda pula uns dias de banho. Comer na cama ou na cabine é totalmente proibido no navio, mas ele não quer nem saber e come. Também bebe uns 4 refrigerantes todos os dias e fuma mais de um maço por dia. Hábitos saudáveis não tem nenhum. Não toma café da manhã e come como um cavalo no almoço. Parece brincadeira que um sujeito desses ainda tenha uma namorada esperando por ele em casa. Alcoolismo é mesmo uma das coisas mais destrutivas da nossa sociedade e que ainda continua sem muita solução. Uns provocam acidentes por causa do álcool, outros brigas e outros levam a família ao desespero; mas todos têm em comum um detalhe: escolhem sempre a alternativa mais autodestrutiva possível. Isso para qualquer coisa. Mesmo sendo uma coisa muito simples. Só para ter como ficar se lamentando depois. As escolhas erradas são impressionantes. Apesar de parecerem óbvias para as outras pessoas, para alcoólatra, as escolhas erradas parecem ser o mais viável, já que vai levá-lo a cair no buraco que ele se sente confortável que é o canto dos problemas sem fim e da melancolia. Um alcoólatra deprimido é facilmente reconhecido, já que suas ações são repetitivas e constantes. Ele não dá uma dentro e se dá, resolve fazer alguma coisa para estragar tudo. Tadinho do Luiz Cachaça. Talvez a história que ele conte repetidamente para as pessoas aponte a razão de tanta tristeza. Meu blog vai mudar para uma casa maior, mas enquanto a nova casa não fica pronta eu vou ficar acomodado aqui.
Escrito por Duilio Ferronato às 10h43
Vou tirar uns dias de folga ! Volto logo.
Escrito por Duilio Ferronato às 18h15
Um sujeito muito chato
O chato já nasce chato, isso todo mundo sabe. Não tem jeito de esconder a chatice. Ela já vem estampada na cara. O chato normalmente tira nota 7 ou 8 na escola. Isso para o resto da vida. Depois ele continua tirando 7 ou 8 em tudo mais. A casa dele é mais ou menos boa, a mulher dele é mais ou menos bacana, o trabalho dele é mais ou menos bacana; ops! No trabalho que o chato começa a fazer muita diferença. Se você tem um vizinho chato dá até para aguentar. É só ignorar e a coisa vai levando, mas se você tem um colega de trabalho chato a coisa vai ficando difícil. O chato é necessariamente persistente. Não porque ele acredite que a persistência leva ao desenvolvimento ou à perfeição. Ele é persistente por medo da perda. Ah, um chato é sempre meio medroso também. Ele tem medo de perder o emprego, mas não tem medo de perder um amigo. Um chato não sabe muito bem o que é ser amigo de verdade. Na hora em que o amigo precisa, ele sempre dá um desculpinha e consegue se safar. E o chato como colega de trabalho é uma coisa muito perigosa, porque assim que ele puder ele irá passar a perna nos mais bacanas. O chato adora fingir que é amigo de gente bacana para poder disfarçar a chatice, mas sempre que pode atropela o colega. Se o colega estiver distraído melhor ainda, porque um chato raramente ataca pela frente. Ele sempre vai preferir as costas ou a distância. Ah, quando você tira férias ou vai viajar é o momento certo para o chato derrubar quem ele mais inveja. O chato é bem invejoso, é claro. Talento é uma coisa que o chato não tem, nunca terá! Mas sabe reconhecer e odeia a injustiça de algumas pessoas terem nascido talentosas e ele ter só nascido chato. A maior alegria do chato é mostrar que venceu na vida pela persistência. Ele normalmente fica anos no mesmo emprego e consegue grandes promoções. Não por talento, mas por artifícios obscuros. Quase sempre um chato é parente de alguém bacana que indicou ele para a função onde ele vai ficar ainda mais chato. O chato conhece bem a técnica de sua profissão. Normalmente ele sabe tudo sobre a técnica, mas não sabe colocar vida na técnica. Enquanto o colega talentoso chega sem saber nada da técnica e coloca vida no negócio em pouco tempo. Um lugar não cresce quando o número de chatos é maior do que número de talentosos, mas se o lugar já é grande e forte os chatos são atraídos como moscas. É claro que os chatos sabem passar facilmente nessas entrevistas de RH, aliás quer gente mais chata do que entrevistador de RH ? O chato começa demonstrando poucas habilidades para a coisa, mas ao mesmo tempo muito domínio da técnica. Esse domínio da técnica, alguns confundem com profissionalismo ou inteligência. Mas podem acreditar que não tem nada a ver com nenhuma das duas coisas. Um chato já vem para o mundo predestinado. Os pais dele já colocam um nome bem comum e chato nele para que ele não passe por nada especial. Afinal ele só vai conseguir ser alguma coisa especial depois que derrubar várias pessoas bacanas. E isso ele vai continuar fazendo pelo resto da vida dele. É mais ou menos como a estória da formiga que queria deixar a cigarra passando frio do lado de fora. E até que conseguiu por um tempo porque a cigarra realmente passou um pouco de frio, mas logo descolou um lugar quentinho para cantar e arrasou.
Escrito por Duilio Ferronato às 10h55
Perseguindo brasileiros
Para que possam trabalhar na costa brasileira as empresas de cruzeiros estrangeiras precisam contratar tripulantes brasileiros. A porcentagem ainda é um mistério: alguns dizem 30%, outros 20% e outros dizem que em alguns anos vai chegar aos 50%. Por causa disso tem uma multidão de brasileiros trabalhando nos navios, mas a temporada é bem curta. Uns 3 ou 4 meses por ano. E mesmo sendo curta é muito lucrativa, já que a grande margem de lucro do navio não está no preço das passagens e sim nas outras coisas que são consumidas durante um cruzeiro. E o público brasileiro consome muito de tudo. Bebe, compra os cacarecos da loja, compra as fotos impressas, abusa dos serviços no salão de beleza também e tudo que puder ser comprado. Um dos vendedores disse que na temporada brasileira ele vendia U$ 2.000 por dia em equipamentos eletrônicos e que agora, na Europa, vende no máximo cartão postal, chocolate ou cigarros. E isso não chega a EU 50,00 por dia. Por causa dessa grande margem de lucro e pela exigência do Governo, os tripulantes brasileiros têm muitas regalias a bordo. Mas já no primeiro porto fora do Brasil, nas Ilhas Canárias, já desembarcaram alguns brasileiros por excesso de advertências. Depois de 5 advertências o tripulante é mandado embora sem direito a receber nada e ainda tem que pagar a passagem de volta. Essas advertências, ou warnings, são usadas o tempo todo para mandar para casa um tripulante que esteja dando trabalho. Só que algumas dessas advertências são totalmente contraditórias e injustas. Se você for reclamar é ainda capaz de receber outra advertência por discutir com um oficial. Uma brasileira recebeu 2 advertências porque mudaram o número do cartão dela sem avisar e ela recebeu uma falta no treinamento, quando foi reclamar com um oficial, ele disse que aqui não era lugar para reclamar e se ela insistisse no assunto ele aplicaria outra advertência nela. Para não ser mandada embora sem nenhum direito, ela exagerou uma dor na coluna e recebeu uma dispensa médica. Essa dispensa é a desculpa que muitos usam para saírem sem ter que pagar a passagem de volta e ainda receber os dias trabalhados. O novo time de diretores tem feito discursos bem preconceituosos contra brasileiros. O chefe executivo da cozinha outro dia disse assim: vocês querem fazer do jeito certo ou do jeito brasileiro, que sempre deixa tudo para outro dia? O novo gerente de fotografia disse: os brasileiros vão ser todos mandados embora sem justificativa porque não sorriem para os passageiros. Coisa estranha de se acreditar porque no navio tem um prêmio bimestral de Mister e Miss Smiles (senhor e senhorita sorriso) e desde que estou aqui os brasileiros sempre ganharam, inclusive o último com menos de 100 tripulantes brasileiros. O chefe da confeitaria disse outro dia que o navio estaria melhor sem brasileiros a bordo e que brasileiros só serviam para a área de animação. O único segurança brasileiro, o Henrique, foi mandado embora quando terminou o período de experiência de 3 meses por receber uma avaliação baixa. Um segurança indiano contou que o chefe dos seguranças não gostava de brasileiros porque todos estavam sempre fazendo muita festa. O preconceito contra brasileiros não vem só dos italianos e chefes, entre os tripulantes também se fala que brasileiro só pensa em festa e não quer trabalhar. Mas na verdade é que os brasileiros trabalham muito, mas reconhecem o direito ao descanso e às horas extras (coisa que os asiáticos morrem de medo de reclamar por temerem perder o emprego). Os brasileiros não têm medo de perder o emprego, por isso reclamam e confrontam seus chefes questionando ordens contraditórias. Por esses questionamentos recebemos a fama de sermos preguiçosos. Eu mesmo trabalho o mesmo tanto que meus colegas filipinos e eles vivem dizendo que eu levo uma vida boa porque exijo que meu horário de refeições seja respeitado. E eles, por terem medo de confrontar seus chefes, são capazes de comer escondidos debaixo da mesa para não receberem uma bronca.
Escrito por Duilio Ferronato às 19h06
Uma galinha
Desde pintinha ela já era ambiciosa. Queria conquistar o mundo. Quando virou franguinha já sabia voar e já tinha entendido a diferença entre poder e influência. Bem, ela sabia a diferença, mas preferia ter as duas coisas ao mesmo tempo.Seu primeiro namorado foi um galo muito bonito, gostosão e rico. Ele tinha poleiro próprio, galinheiro na praia, penas impressionantes e amigos para lá de especiais. Mas o relacionamento só durou um tempinho, depois cada um foi seu lado. Logo em seguida ela engatou um outro galo poderoso. Esse já era um galo velho, mas muito rico e que só gostava de galinhas jovens. Tinha de tudo que um galo pode ter. E ela, como toda galinha esperta, resolveu botar vários ovos do galo velho antes que ele virasse ensopado. Só por precaução. Mesmo o galão dando tudo quanto ela queria, ainda não era suficiente. Ela queria mais.
Foi uma separação traumática, ela só levou uma parte do galinheiro dele. Ele contratou uns papagaios para serem os advogados dele e acabou se dando bem. Mas a tristeza da separação não durou muito. Aliás, não durou nada! No dia seguinte ela já conheceu um pavão incrível. Um pavão é um tipo de galo, só que muito mais exagerado. O pavão adorou a galinha esperta. Esqueci de dizer que essa galinha era tão esperta que tinha aprendido a botar ovos já com informações do DNA escritas na casca. Ah, essa era a galinha mais esperta que já tinha nascido no interior de São Paulo. O pavão levou a galinha para viajar pelo mundo. Conheceram tudo, ou pelo menos quase tudo. Só que ela não esperava que filhote de pavão com galinha não vingasse. E sem pintinhos, não há galinha que consiga manter seu posto. Mesmo trabalhando na TV ou sendo da alta sociedade, uma galinha precisa ter muitos pintinhos para conseguir manter a posição social. Ela fez até tratamento hormonal para poder parecer com uma pavoa, mas esses tratamentos acabam deixando qualquer galinha com cara de pata. Apesar de parecer uma pata de plástico, ela se convenceu que estava linda e seguiu em frente com projeto de transformar-se na senhora pavão oficial. Até saiu em algumas capas de revistas com as penas tingidas. O pavão por sua vez, aguentou a galinha por bastante tempo, quer dizer, mais ou menos! Em alguns meses o pavão voltou para seu viveiro antigo, onde só eram criadas aves exóticas. Todo pavão que se preze tem muitas aventuras com galinhas e adora contar para todo mundo os detalhes íntimos da galinha. E galinha com hormônio, plástica e cremes importados pode até parecer uma ave exótica, mas não convence. A coitada teve que ir morar num galinheiro econômico. E logo ela que detestava qualquer coisa relacionada com economizar. Ela era do tipo que sabia muito bem guardar o dinheiro dela e gastar o dos outros. E foi graças ao dinheiro guardado que ela conseguiu ficar firme por uns tempos sem precisar da ajuda de um galo, pavão ou peru. Acabou arranjando um emprego de consultora de alguma coisa e ganhou um dinheirão. Não demorou muito e ela começou a desenvolver um interesse maluco por franguinhos. Bem o resto da história vocês já conhecem.
Escrito por Duilio Ferronato às 10h40
Coisas impressionantes
A bordo há quase 3 meses. E algumas coisas realmente impressionam. 1- No navio tem uma escolinha, onde se aprende: inglês, português ou italiano. Mas os interessados são poucos. O antigo professor, que desembarcou no domingo passado, desestimulava todos os rapazes e estimulava as moças. Um safado italiano. Para as meninas ela fazia a inscrição na mesma hora e para os meninos ele pedia um monte de coisas. E quando um rapaz conseguia se inscrever, ele ficava marcando as aulas do moço em horários impressionantes. Ainda bem que ele foi embora e chegou uma professora bacaninha. 2- O preço da internet é outra coisa que não dá para entender. Na rua, a internet custa EU 1,00 por hora, a bordo custa EU 8,00 e ainda é lenta e cai. Eu comprei uma conexão da TIM, que aqui na Itália funciona bem. Custou EU 90,00 por 1 ano com direito a 40 horas por mês. Infelizmente só funciona na Itália, ou seja: só uso aos domingos, segundas e terças-feiras, e só quando o navio está parado, quando está navegando o sinal interno bloqueia as outras conexões. 3- O tanto de comida que é jogado fora é de espantar qualquer um. A empresa do navio tem um certificado da WWF de sustentabilidade, mas esse certificado deve ter custado uma boa contribuição da empresa para a ONG, porque não dá para acreditar que uma ONG ajuizada dê um certificado para um lugar onde jogam tanta comida fora e não respeitam nenhuma lei trabalhista séria. Os contratos de trabalho dizem que iremos trabalhar 11 horas por dia, mas aqui são poucos os que trabalham só 11 horas, a grande maioria trabalha no mínimo 13 horas por dia. Sem nenhum dia de descanso e nada de folga durante os 8 meses de contrato. A WWF deve ter dado esse certificado esquecendo que sustentabilidade também quer dizer não desperdício de comida e respeito ao trabalhador, não incentivando a mão de obra semi-escrava (como é o caso dos asiáticos contratados). 4- a ignorância de alguns tripulantes também deixa os ouvidos arrepiados. Outro dia um italiano perguntou se nas Filipinas havia mar. Essa doeu lá no fundo. Um brasileiro perguntou qual era a língua falada na Inglaterra. E outro engatou perguntando se a Inglaterra ficava na Europa ou na África. Outro disse que gostaria de conhecer o norte da Europa e depois aproveitar e ir para a África porque eram próximos. O chefe dos confeiteiros pediu para um dos cozinheiros brasileiros fazer um bolo típico brasileiro e ele fez um brownie. Essa me deu vergonha. Virou piada até hoje. E esse cozinheiro ainda estudou gastronomia num lugar que chama Centro Europeu, em Curitiba, e trabalhou em um hotel de luxo lá. O pior é que ele justificou dizendo que brownie era um bolo típico brasileiro porque ele comia desde criança. Minha Santinha do Capim Seco! 5 – E tem as ordens de escritório. Isso acontece em qualquer empresa onde tem muita gente querendo inventar regras sem conhecer o campo de trabalho. Aqui, a nova diretora de hotel, que é o cargo mais alto da hierarquia de serviços, mandou que todo mundo que fosse buscar alguma coisa no armazém (onde ficam estocados os alimentos) levasse uma caixa branca com tampa e que transportasse tudo só nessas caixas. Só que vão até o armazém mais de 100 pessoas por dia e no navio inteiro não tem mais do que 20 caixas! Como isso seria possível? Mas as ordens absurdas não vêm só da diretora de hotel, apesar dela ser a que mais inventa coisas impossíveis, os chefes e o pessoal dos escritórios vivem mandando ordens que não são possíveis de serem realizadas. Por isso nos dias de inspeção as geladeiras são desligadas e colocam uma plaquinha dizendo que estão em manutenção, os funcionários são mandados para as cabines para não serem questionados pelos inspetores e por aí vai. 6 – quando o navio está atracado, um quinto da tripulação fica proibida de descer. O que eles chamam de Port Maning. E é divido por cores, a minha cor é azul. E esse que têm que ficar a bordo são escalados para posições de emergência. A minha posição, em caso de emergência, é correr para um posto e ficar esperando ao lado de um telefone. Mas tanto minha cabine como minha estação de trabalho ficam mais próximas da porta de saída. E, é claro, que numa situação de emergência a primeira coisa que eu faria, seria correr para fora! Mas o pior mesmo é meu colega que a posição dele é liberar os barcos salva vidas. Pensem bem: quem vai usar barco salva vidas se o navio está atracado num porto? Essa é uma ordem que dá medo só de pensar que quem pensou nela é responsável pela segurança do navio. 7 – E, por fim, o chefe executivo outro dia disse que não custava nada para os cozinheiros sorrirem para os passageiros e ele mesmo nunca ninguém viu sorrindo nem para os passageiros e muito menos para os cozinheiros. Aliás, ele nem cumprimenta ninguém! Se você ainda insistir em dizer um bom dia, ele simplesmente ignora e é capaz de ainda dizer que seu uniforme está sujo ou que você está atrasado. Os cozinheiros andam dizendo que ele não sabe cozinhar e que chegou nesse cargo, que é o mais alto da cozinha, porque é parente do capitão. Nos discursos que ele faz para os cozinheiros nunca falou sobre qualidade da comida. Só fala em quantidades, números e principalmente sobre limpeza. Quando ele entra na minha estação nunca diz nada sobre como poderíamos melhorar isso ou aquilo, só entra e fala sobre limpeza.
Escrito por Duilio Ferronato às 20h49
Escrito por Duilio Ferronato às 10h51
O tamanho do pinto
A tripulação do navio é mais ou menos de 70% de homens e 30 mulheres. Na cozinha não tem nenhuma mulher. Quando passa alguma pelos corredores os coitados dos cozinheiros ficam enlouquecidos. Um navio é um paraíso para as feinhas. Elas todas arranjam namorado fixo e conseguem até escolher. As meninas asiáticas são muito discretas, as brasileiras têm muita fama e as italianas se fazem de difíceis, mas quando estão transando na cabine dá para escutar até do lado de fora do navio, parece filme pornô – elas gritam bem alto: ah si! Ah si! Ah si! Ahahahahahah si! E no outro dia continuam fingindo que nada aconteceu. As asiáticas só querem saber de casamento, nem adianta tentar levar uma para cama se não prometer casamento e na hora do desespero os caras prometem e depois têm que ficar fugindo das meninas o tempo todo. As brasileiras fazem a alegria da moçada, elas andam pelo navio de saia bem curtinha ou de shortinhos bem apertado. Os tontos ficam loucos com elas, fazem promessas de amor eterno e essas coisas de desesperados. Elas também adoram passar pelo meio do corredor dos carregadores de malas só para escutarem elogios em umas 20 línguas diferentes. Entre os homens o assunto é muito parecido com os de qualquer lugar: mulher, tamanho de pinto, dinheiro e coisas eletrônicas. Aqui não se fala muito sobre esportes (só os brasileiros ainda falam sobre futebol, mas como o número de brasileiros amanhã vai diminuir mais ainda, esse assunto vai acabar). Em Savona, vão desembarcar vários que começaram o contrato um pouco antes da temporada brasileira e outros que serão transferidos para outros navios. Sobrarão poucos. Falar de mulher é o assunto mais recorrente, ops esqueci de falar que na cozinha o assunto favorito é falar mal do chefe, do secretário e do diretor da cozinha. Depois desses assuntos o mais falado é o tamanho e a rigidez do pinto. Os indianos afirmam ter o maior de todos, os filipinos afirmam ter o mais rígido e os brasileiros, para sacanear, dizem ter o mais usado do planeta. Ninguém mostra nada, mas se fala muito sobre o assunto. Outro dia apareceu uma revista pornô gay na cozinha (vinda de uma cabine de passageiros). Os filipinos e os indonésios abriram a revista, folhearam página por página e foram comentando coisas mais ou menos assim: olha este daqui tem um lado maior do que o outro, esse daqui depilou, esse daqui tem torto, esse daqui tem uma cor diferente e coisas assim. Mesmo os mais machões folheavam a revista com muita curiosidade e faziam comentários quase científicos. Os indianos reagiram da mesma forma que os brasileiros: viravam a cara.
Escrito por Duilio Ferronato às 20h18
Tinta fresca
Uma equipe de pintura fica retocando os arranhões do navio todos os dias, por dentro e por fora. E quando eles pintam algum lugar interno, sempre colocam uma plaquinha dizendo tinta fresca em várias línguas, menos português. E isso sempre me intrigou, porque mesmo quando estávamos no Brasil a plaquinha não vinha em português. Acabei perguntando para um dos pintores porque não tinha na minha língua e ele definiu o comportamento brasileiro assim: Mesmo que nós escrevêssemos em português ou colocássemos um desenho explicando, os brasileiros iriam tocar só para ter certeza que estaria fresca mesmo!
Escrito por Duilio Ferronato às 19h31
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