Conversa com a índia Nambi
DF – Tem poucas mulheres por aqui, por quê ?
Nambi – A grande parte das mulheres tem filhos pequenos e é mais difícil para as mulheres ficarem na rua. Hoje nós dormimos na rua.
DF – Dormiram aqui na calçada ?
Nambi – Foi, aqui mesmo.
DF – E como fizeram com comida e banheiro ?
Nambi – As pessoas estão ajudando a gente com comida e cobertores, banheiro as mulheres podem usar lá de dentro do prédio da Funasa, mas os homens não podem mais entrar, eles têm que procurar banheiros pelos bares. Eu tomei banho na casa de uma senhora e eles estão há 3 dias sem tomar banho. E isso é muito ruim para os índios, nós tomamos banho a toda hora.
DF – Vou ligar para a Toca de Assis e para o Projeto Protege e ver se eles podem arranjar lugar para vocês tomarem banho.
Nambi – ah, isso vai ser muito bom, porque nós só vamos sair daqui com alguma resposta da Funasa.
DF – O que vocês querem com essa manifestação ?
Nambi – Hoje estamos focando em problemas de saúde das aldeias. O principal é o saneamento que foi feito e a situação piorou. Construíram uma rede de esgotos que entope e vasa para dentro das casas. As crianças e até os adultos estão ficando doentes por causa disso.
DF – Está parecendo daquelas obras públicas que têm que ser refeitas umas 5 vezes até ficarem boas.
Nambi – A nossa foi feita só uma vez e nunca ficou boa. Já na primeira chuva a fossa transbordou e a solução nunca chegou. Há 2 anos o órgão esqueceu da gente.
DF – A Funasa vem esquecendo de vocês ?
Nambi – o Diretor não é simpatizante com a causa indígena, ele foi colocado nesse cargo por indicação política e nunca foi nem visitar as aldeias. Não recebe os índios e quando nós procuramos por ele, ele sai pela porta dos fundos.
DF – Parece que ele tem uns parentes importantes...
Nambi – É, estão falando isso por ai, mas para nós o que importa é que a causa do índio não seja tratada como problema político e sim como problema de saúde e educação pública.
DF – Você acha que as pessoas estão simpatizando com essa manifestação ?
Nambi – É a primeira vez que fazemos isso, queremos que as pessoas entendam que não estamos exigindo nada que não temos direito. Temos direito à saúde e educação como qualquer cidadão e só estamos aqui pedindo que isso seja atendido.
DF – Vocês são atendidos em hospitais comuns ou vocês têm algum tipo de apoio especial.
Nambi – Temos uma base de apoio, que atende os casos mais simples e os casos mais graves são encaminhados para os hospitais. Mas nossa Base de Apoio do Vale do Ribeira está sendo despejada por falta de pagamento do aluguel.
DF – Quem deveria pagar o aluguel ?
Nambi – a Funasa. Eles não têm feito o pagamento dos agentes de saúde há 3 meses e os remédios não chegam mais.
DF – Os índios têm uma imagem ruim com a sociedade, não é raro eu escutar as pessoas dizendo que o índio é preguiçoso ou bêbado.
Nambi – Eu aprendi isso com meu pai : ele disse que chamavam a gente de preguiçoso, mas nós cortamos uma árvore com machado de pedra e construímos nossas casas com material da mata. Depois fomos proibidos de cortar árvores, mesmo para construir, fomos proibidos de falar nossa língua e fomos limitados em um território muito pequeno. Passamos a depender de doações a ações do Governo. Não queremos isso. Queremos desenvolver nosso trabalho e ter nossa própria renda. A Funasa deveria ser o órgão que facilitasse essa transição, mas todas nossas propostas ficam engavetas por anos e não conseguimos levar nada para frente. Não somos preguiçosos, somos presos em aldeias sem perspectivas e com jovens com baixa auto estima porque não podem colocar nada para frente.
DF – Como é a educação na aldeia ?
Nambi – Cada aldeia deveria ter uma casa de cultura, que funciona como escola e centro de convivência. Na escola as crianças estão estudando os problemas indígenas e as questões brasileiras. Antes só estudavam português e matemática. Agora estão recebendo uma educação mais abrangente e a nova geração estará mais capacitada para negociar com esses órgãos que têm nos enrolado há muitos anos.
DF – Vocês têm algum deputado que apóia sua causa ?
Nambi – Na época das eleições aparecem alguns candidatos com propostas, nos acreditamos e votamos neles, depois eles desaparecem e só voltam nas outras eleições.
DF – ah, isso eles fazem com todo mundo, não é só problema de índio.
Nambi – Em alguns Estados têm políticos mais voltados para a causa do índio, mas no Estado de São Paulo não tem.