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Fala aí
Gente que some
Nunca mais tinha ouvido falar da moça
Éramos amigos
Ela sempre me desafiava
Uma chata. Nunca elogiava
Leonino como eu, adora ter a juba escovada
Ela não escovava
E ainda avisava quando eu passava dos limites
É sempre bom ter alguém para fazer isso
Morava numa rua que tinha uma subida
Era amiga de outra menina
E até hoje são amigas
Sempre admirei as mulheres que têm amigas mulheres
Mulheres que não gostam de mulheres
Prefiro distância
Não competia com mulheres à toa
Ela não !
Competia com todo mundo, mas nas idéias
Falava o que pensava
Cresceu, estudou bastante
Estudava em colégio estadual
Mesmo assim entrou numa boa faculdade
Trabalhou em lugares bacanas
Cansou, foi para Europa fazer um curso
Lá ficou
Não volta mais, parece
A nova família - são os amigos
Anda me escrevendo
Estranha coincidência
Andava pensando nela
Um dia vamos tomar um café
Escrito por Duilio Ferronato às 10h58
Cristiano

Nasceu aqui mesmo, em São Paulo, no Jardim Japão. Tem 23 ou 26 anos, ele não lembra direito. Perdeu os documentos mais de 10 vezes e agora resolveu deixar com o pessoal da igreja, eles cuidam de tudo para ele.
O pai dele era branquinho de olhos azuis, bem pelo menos foi isso que a mãe dele sempre disse. Ele mesmo não conheceu o pai, só conheceu os padrastos, pais dos 8 irmãos que ele tem. Talvez ele tenha mais alguns; a mãe dele ainda continua querendo casar.
Ele mesmo já tem uns filhos, mas não conhece direito, nem sabe se são dele mesmo. A Vilma dava para todo mundo na rua, mas dizia sempre que o filho era dele. O primeiro menino era parecido com ele, só que mais branco, deve ter puxado o pai dele.
Desde muito pequeno ele já trabalhava; trabalhou de ajudante de feira, guardador de carro, lavador de carro – aliás o dono do lava rápido disse que ele era o melhor lavador de carros do Jardim Japão – depois arranjou emprego numa loja de tintas, ficou lá quase 1 ano. Um outro menino do estoque apresentou as delícias da cola e ele nunca mais largou.
Foi para rua e lá conheceu os irmãos de rua: o Fabiano e o Mariano. Parece brincadeira, mas é esse mesmo o nome deles. Por isso até, que ficaram amigos! Os nomes rimam.
A cola ele deixou de lado faz tempo, mas a pinga não consegue largar. Já fez tratamento, foi internado e quase morreu no hospital. Só que não consegue largar.
Cuida dos carros na rua e com o dinheiro, ele e os amigos compram aquela pinga de garrafinha de plástico por R$ 1,00. Comer, eles quase não comem. Dá enjôo !
No frio a prefeitura ajuda bastante; mas morar no albergue, ele não quer. Voltar para casa da família não dá mais, mesmo porque ele nem sabe direito por onde andam os irmãos e a mãe.
Bem, se você quiser conhecer o Cristiano e seus irmãos de rua, é só passar ali perto da Câmara Municipal que eles estão sempre por ali.
Escrito por Duilio Ferronato às 12h33
Conversa com Pardal da Saudade
Pardal – Boa tarde minha gente ! Tamo aqui para fazê um repenti.
Pássaro – O cobradô tá animado, o cabelo tá caindo mas o resto tá subindo...
Pardal – Essa aqui tá de calça preta, eu já vi ela passá lá na Tiêta
Pássaro – Agora minha gente, o show já vai terminá porque o fiscal acabô de entrá.
Pardal – Se não podê, não precisa pagá...mas deixa o celulá
Pássaro – Seu motorista, o senhô é um cara legal, quando eu virá viado a gente vai namorá.
Pardal – Seu cobradô, muito obrigado, não tenho como pagá, se o senhô quisé passa em casa e pega minha mulé
Pássaro – Rapaz simpático, se não pode ajudá deixa a mulé
Pardal – Quem quiser também estamos vendendo nosso CD, é só 7 real.

DF – vocês ficam fazendo show nos ônibus o dia inteiro ?
Pardal – a cidade toda! de Guarulhos até Interlagos
Pássaro – desce de um e pega outro
DF – e quantos CDs vocês conseguem vender ?
Pardal – uns 50 por dia...trabalhando o dia inteiro
Pássaro – você viu, nesse que você tava deu para vender 4
DF – e de dinheiro em gorjetas, quanto que dá por dia ?
Pardal – tinha que dá uns 200, mas não chega nisso todo dia
DF – 200 ? 100 para cada por dia parece bom !
Pardal – parece ... mas tem que alimentar a família...a mulher dos outros... conta de luz, água...
Pássaro – e filho pequeno só dá despesa
DF – vocês têm quantos filhos ?
Pardal – eu tenho 2 pequenos, um de 9 e outro de 8
Pássaro – eu tenho 4 ! A mais velha tem 16. Quer ser veterinária. É inteligente que só ela.
DF – E sua mulher, faz o quê ?
Pardal – a minha agora tá de licença do trabalho, tá esperando uma coisa dela lá...
Pássaro – a minha faz café de camelô, faz correria do rapa todo dia
DF – quem vende café na rua, eles pegam também ?
Pássaro – virgi!? Já tomaram mais de 8 garrafas dela. A coitada chegou a ter pressão alta na rua.
DF – e ela não consegue fazer um esquema com o Rapa ?
Pássaro – só dá para fazer esquema quando o Rapa vem sem a polícia. Se a polícia tá junto ...eles levam tudo.
DF – ah, o Rapa tem medo da polícia ?
Pássaro – só sei que quando a polícia tá junto não tem conversa, quando o Rapa tá sozinho eles querem caixinha.
DF – e onde vocês moram ?
Pardal – em Paraisópoles. Conhece ?
DF – conheço, sim. Lá é casa própria ou aluguel ?
Pardal – a minha é aluguel, 300 por mês. É com 2 cômodos e quintal grande
Pássaro – a minha é própria, mas a prefeitura quer colocar a gente para fora.
DF – como assim ? você não tem escritura ou não pagou o IPTU ?
Pássaro – eu comprei...é um barraco...era, agora é de tijolo, mas quando eu comprei era de madeira, na favela. Agora todo mundo construiu de tijolo. Mas a prefeitura está ameaçando tirar todo mundo.
DF – você já falou para eles que você comprou o barraco ? o que eles disseram ?
Pássaro – eles diz que recibo de mão não vale. Como não vale se eu comprei e paguei com dinheiro? Quando saí da firma, recebi o fundo e comprei.
DF – devia valer recibo de mão. Então você tinha em emprego e saiu para ser músico ?
Pardal – eu vim de Pernambuco e já era músico aqui. Nem dá para arrumar emprego, hoje eles querem que tenha estudo e eu tenho baixo grau de leitura.
DF – baixo grau de leitura ? como você consegue escrever as músicas ?
Pardal – a gente não escreve nada, é tudo de improviso.
Pássaro – eu só sei escrever meu nome, mas só em letra de mão boa. Se deitar um pouco a letra...não dá para ler.
DF – e vocês fazem show também ?
Pardal – já fizemos no Brasil inteiro, já viajamos por tudo. Tem gente que chama para fazer evento.
DF – ah, é ? como encontram vocês ?
Pardal – tem meu celular 9236-2815
DF – e como vocês escolhem o ônibus para pegar ? tem algum segredo ?
Pardal – a gente só pega ônibus novo! Os pau velho fazem muito barulho e estouram tudo a garganta de cantar alto.
DF – é boa estratégia. E os motoristas sempre deixam vocês entrarem sem pagar ?
Pardal – ah, eles sabem que é nosso trabalho...
Pássaro – vamos nesse, vem com a gente. Entra pela porta de trás...pode vim, o cobrador é pernambucano...
Escrito por Duilio Ferronato às 11h55
Conversa com Ângelo

Ângelo – hoje tá bom para fotografar aqui.
DF – é, bem vazio é mais fácil.
Ângelo – você tinha que ver isso aqui antes de ontem !
DF – eu vi na televisão, estava parecendo um mar de gente. Você trabalhou aqui todos os dias ?
Ângelo – direto! nem 1 dia de folga. Só no ano novo que vou tirar uns dias para ir para praia com a molecada.
DF – foi muito puxado o mês de dezembro ?
Ângelo – você nem diz ! a gente trabalhou mais de 10 horas por dia sem sentar.
DF – mas como assim ? não podia sentar ?
Ângelo – nem dava ! era gente de tudo quanto era lado e eu tinha que ficar de olho em tudo .
DF – você é segurança só desta esquina ou das lojas também ?
Ângelo – isso de hoje é só um bico. Na verdade sou segurança daquela loja ali. E aos domingos e feriados cubro folga dos colegas.
DF – como é isso, você trabalha numa empresa de segurança ?
Ângelo – empresa...mesmo, não é ! É uma organização. Os “cabeças” passam nas lojas arrecadando o dinheiro e pagam a gente por mês. Nunca atrasam, mas não tem registro, nem beneficio. Apesar de que neste ano não posso reclamar. A dona da loja, deu cesta de natal, pagou uma festa no Bovinus e com bebida e tudo.
DF – é bom ganhar umas cestas para animar. Os cabeças que você disse são os chefes ? Os seguranças mais antigos ?
Ângelo – dizem que são todos militares, tem até um delegado. Eu não conheço muito, estou nisso só há 6 meses.
DF – deve ser um bico para eles também. E facilita o contato com a Polícia.
Ângelo – é. Quando acontece alguma coisa na nossa área, é só passar um Nextel – que a viatura chega em menos de 5 minutos. Mas é só nas áreas protegidas, nas que não pagam proteção demora mais.
DF – parece meio mafioso.
Ângelo – não é bem assim. É que nem qualquer serviço: se você dá caixinha você recebe atendimento preferencial.
DF – e a polícia é assim também ?
Ângelo – quer dizer...não sei direito. Mas eles chegam rapidinho. É só chamar.
DF – e os camelôs ? eles dão muito trabalho ?
Ângelo – a gente tenta fazer eles ficarem longe da porta das lojas, mas alguns são cara dura e enfrentam a gente.
DF – e o Rapa, não leva todos embora ?
Ângelo – leva... só os que não dão caixinha.
DF – ah ! vai me dizer que o Rapa também recebe caixinha de camelô ?
Ângelo – ehhhh ! você acha que os funcionários do Rapa não têm família na rua ? fica só vendo. Eles têm um rádio que avisa os parceiros que estão chegando. Assim só dançam os patos. Os que não fazem parte da turma. Você já viu que às vezes eles chegam e prendem só uns e deixam os outros ?
DF – eu vejo que eles chegam, as pessoas correm e depois voltam em seguida.
Ângelo – eles correm, mas ficam por perto. Já é tudo combinado. Só dançam os que não sabem. Outro dia deu dó. Uma senhora com uma sacola, eles levaram tudo. Ela chorava e dizia que era tudo que ela tinha na vida. Mesmo assim eles levaram. Os camelôs organizados eles não levam.
DF – camelô ganha bem ?
Ângelo – tem um aqui na ladeira que tem um Eco Esporte novinho. Ele chega às 5 da manhã e até as 3 já fez mais de 300. Até o fim do dia já fez mais de 500.
DF – isso por dia ? todos os dias ?
Ângelo – é ! tem uns aqui que fazem mais 8 mil por mês.
DF – você já tentou ser camelô ?
Ângelo – já, mas não é vida pra mim. Tem que fazer cada coisa para viver... que eu não nasci pra isso. Prefiro ter um emprego mais seguro.
DF – mas ser segurança sem registro é seguro ?
Ângelo – esse serviço de segurança é só um bico. Estou procurando outro. Já falei com a dona da loja e quero começar a ser ajudante de vendas e depois vendedor. Mas com registro. Agora com filho tenho que ter registro, senão é embaçado.
DF – quantos filhos você tem ?
Ângelo – 2 ! um casal. Uma de 5 e um de 3 .
DF – mas você é bem novo, não ?
Ângelo – tenho 23.
DF – vai ter mais filho ?
Ângelo – não ! com essa mulher, não ! chega !
DF – chega por causa dela ou porque é muito mesmo ?
Ângelo – criar filho é embaçado. Tudo que eu ganho tenho que dar para os moleques. Não sobra nada. É embaçado.
DF – é embaçado mesmo. E tem muitos roubos por aqui ?
Ângelo – tem muito ladrão cortador .
DF – o que é isso ?
Ângelo – aqueles que passam com uma tesoura, cortam a bolsa da mulher e levam tudo. Assalto não tem. Só têm os cortadores mesmo.
DF – eu já vi umas mulheres chorando porque tiveram a bolsa cortada. Dá dó de ver gente ser roubada.
Ângelo – quando a gente pega um desses, encaminha para o DP mais próximo, mas no dia seguinte eles já estão de volta.
DF – não ficam presos ? Saem no mesmo dia ?
Ângelo – levam uns tapas e voltam. Aí, ficam sem vergonha. Só ficam presos mesmo se roubarem as lojas. Se, só roubar bolsa saem no mesmo dia.
DF – Você só está me contando coisa ruim. Assim eu fico sem esperança.
Ângelo – não cabe todo mundo preso. Não tem lugar. Então, eles ficam lá descansando um dia. Tomam um choque se não respeitarem o delegado e depois voltam.
DF – me conta uma coisa boa .
Ângelo – a boa é que eu vou para praia no domingo.
Escrito por Duilio Ferronato às 17h59
CONVERSA COM PAULO
Paulo – você viu o que os traficantes fizeram lá no Rio ?
DF – não, o que foi ?
Paulo – atiraram de metralhadora russa, de fabricação da Alemanha, parece que compraram no Vietnã, encheram o helecóquitero da tropa de elite de bala. As balas eram do tamanho de uma janela, derrubaram o helecóquitero sem dó ! É, o Rio tá foda, os nóia tão dominando.
DF – parece que está mesmo, ainda bem que a gente está mais seguro aqui.
Paulo – claro, aqui tá mais tranqüilo. Pelo menos não tem tropa de elite...você viu o filme ?
DF – Vi sim, meio violento...
Paulo – dá hora, tá vendendo muito, todo mundo quer.
DF – vendendo os piratas ?
Paulo – é, eu vendi mais de 100...
DF – quando você não fica aqui, você vende DVD ?
Paulo – aqui eu fico só terça e quinta. É meu fixo. E nos outros dias eu vendo DVD nas ruas.
DF – qual que dá mais ?
Paulo – aqui dá uns 50 por dia, olhando os carros. Vendendo DVD uns 150 por dia. No auge do tropa de elite o do senhor dos anéis eu vendi muito mesmo.
DF – é 150 de lucro ou faturamento ?
Paulo – não, quer dizer ... como assim ?
DF – quer dizer se você vende 150, quanto sobra para você ?
Paulo – sobra tudo, eu guardo no banco. Tô guardando para alguma necessidade.
DF – quanto você paga nos DVDs ?
Paulo – eu compro ali num fornecedor especial, pago 3 por 10.
DF – e vende por quanto ?
Paulo – 4 por 10.
DF – não estou entendendo, parece que você vende mais barato do que você compra.
Paulo – não... quer dizer ... eu pago 3 por 10. E depois vendo 4 por 10 !
DF – então ! você está perdendo dinheiro assim. Tem que vender cada DVD por pelo menos 4,50 !
Paulo – mas aí ninguém compra. E eu não vendo nada.
DF – mas se você vende por mais barato do que você compra, você acaba pagando para trabalhar
Paulo – É ? Explica isso direito...eu tenho que vender por quanto ?
DF – olha se você compra 3 por 10, quer dizer que você paga mais ou menos 3,30 cada DVD . Então para você ganhar tem que vender por mais que 3,30.
Paulo – Isso. Eu vendo 4 por 10 ! Não tá certo ?
DF – não! Se você vende 4 por 10, você está vendendo cada DVD por 2,50. Você está perdendo dinheiro.
Paulo – é por isso então que eu estou vendendo tão fácil !
DF – deve ser, ou você está comprando muito caro. Não tem outro lugar para comprar ?
Paulo – eu não conheço, o japonês que vende só aceita dinheiro...e só pode comprar de 10.
DF – é japonês ou coreano ?
Paulo – ah, é coreano. Tem cara de japonês, mas ele disse que é coreano.
DF – é... eles são meio parecidos...
Paulo – agora você me deixou preocupado. Será que eu estou fazendo errado ?
DF – acho que está sim.
Paulo – você vê... né ? As pessoas não explicam as coisas para gente, e a gente sem estudo não entende dessas coisas. Por isso que pobre vive sem dinheiro, quando tem um pouco... ainda dá um jeito de perder...
DF – pois é. Tem que fazer umas continhas antes de sair vendendo, senão perde dinheiro.
Paulo – amanhã você vem aqui ?
DF – não sei... por quê ?
Paulo – eu queria que você explicasse essa matemática para meu primo. Nós entramos nesse negócio de DVD juntos e ele que me disse para fazer assim... queria que você explicasse como é o certo, para ver se a gente consegue progredir.
DF – então, faz o seguinte, vamos marcar amanhã às 3 horas, pode ser ? E eu trago uma calculadora e papel para explicar essa matemática. Mas vocês tÊm que saber que vender DVD é crime... isso vocês sabem ?
Paulo – é ! a gente sabe, mas os homens só pegam quem tem banquinha. Nós vendemos na sacola e ... na sacola pode.
Escrito por Duilio Ferronato às 21h05
Conversa com Miguel
MIGUEL - Você bem ? Parece que está com dor. DF - Estou com uma dorzinha na virília, mas foi de tanto andar.
MIGUEL - Andou muito hoje ? De onde você é ? DF - Andei o dia todo e agora está doendo um pouco, sou brasileiro.
MIGUEL - Eu gosto muito do Brasil, os jogos foram muito bons lá. 2 cubanos quase ficaram por lá, mas resolveram voltar.
DF - É verdade que eles voltaram porque a família deles foi ameaçada ? MIGUEL - Acho que é mentira, eles foram na televisão, conversaram com Fidel e até receberam um perdão. Mas ameaça acho que isso não existe por aqui... bem pelo menos eu nunca ouvi falar disso.
DF - Você é daqui de Havana ? MIGUEL - Não sou de uma província, mas vim aqui para trabalhar como pedreiro.
DF - Aqui se ganha mais do que na sua província ? MIGUEL - Sim, mas é tudo mais caro. Aqui eu ganho mais ou menos U$ 15 / mês, na minha província isso é muito dinheiro, mas aqui, por causa do dinheiro dos turistas, é tudo mais caro.
DF - U$ 15 ? Mas isso dá para fazer o que ? MIGUEL - Quase nada. Comprar um tênis como esse seu é impossível. Quanto você ganha ? DF - bem... mais de U$ 1.000 MIGUEL - Tudo isso ? No Brasil é rico quem ganha isso ? DF - Não, mas vive bem. Os ricos ganham mais de U$ 10.000
MIGUEL - Aqui acho que ninguém ganha isso. Nem "Os Comandantes"
DF - Você gosta do Fidel ? MIGUEL - Eu tenho 34 anos, nasci com a revolução, e Fidel é como um pai. Você pode não aprovar algumas coisas dele, mas o tempo todo escuta falar dele, toda hora lê as coisas que ele escreve... então vira um amor paterno, quase doente. Não dá para não gostar.
DF - Você já o viu alguma vez ? MIGUEL - Uma vez um problema com os balseiros no porto, e eles se revoltaram e começaram a jogar pedras na polícia. Sem ninguém perceber, Fidel veio a pé e começou a falar de um por um. E perguntou qual era o problema. Eu estava lá e fiquei congelado, ele é uma figura impressionante. Tinham mais de 400 revoltados e ele falou com eles sem nenhum medo, acalmou todo mundo sozinho, sem polícia, sem exercito. Só chegou e todo mundo ficou quieto. Era como se Jesus tivesse aparecido.
DF - As pessoas tem medo dele ? MIGUEL - Medo não ! Respeito. Ele fez muito para os cubanos. E principalmente: todos têm consciência que ele enfrentou sozinho... muitas coisas para conseguir colocar nosso país numa situação privilegiada.
DF - Parece que aqui existem 2 mundos diferentes: 1 para os cubanos e outro para os turistas. MIGUEL - Isso mesmo, agora mesmo, não podia estar conversando com você, está vendo os policiais ? Estão querendo saber o que estou falando com você.
DF - Você não pode falar comigo ? MIGUEL - É meio complicado, não devemos nos envolver com turistas. Só podem conversar com turistas pessoas que estão na área turística. Se você não está; não deve se envolver.
(os policiais chegam e pedem os documentos dele e separam a gente)
Policial - O senhor conheceu ele quando ? DF - Hoje, na rua. Algum problema ? Policial - Não senhor, é só para sua segurança. Boa noite.
DF - O que ele te falaram ? MIGUEL - Nada... assim é Cuba.
DF - No Brasil, até pouco tempo, tínhamos uma ditadura e os policiais faziam coisas parecidas. MIGUEL - É mesmo ? Quem era o ditador ?
DF - Foram muitos, mais ou menos escolhidos pelos deputados, que eles mesmos escolhiam. MIGUEL - Mas agora vocês estão bem com o Lula ? Na televisão ele sempre aparece aqui. Dizem que ele fez muito pelos pobres.
DF - Ando meio em dúvida sobre isso. Sabe que depois que um cara chega ao poder ele muda muito... MIGUEL - É mesmo! Aqui em Cuba acontecem muitas coisas que Fidel nem sabe... Você acha que ele sabe que ele sabe o que a polícia faz com a gente ?
DF - É ! Dizem isso do Lula também; que ele não sabe de um monte de coisas... você acha, que depois que o Fidel morrer, as coisas vão mudar ? MIGUEL - Acho que vai continuar igual. Por que mudar ? Se as pessoas estão bem e vivendo bem ? Ninguém quer mudar, só querem ter mais dinheiro. Estão satisfeitas com o sistema de não ter classes sociais. Aqui não existem nem ricos nem pobres. Somos todos "Obreiros" .
DF - Companheiros ? MIGUEL - É isso! Falou certo, como irmãos. Todos trabalhando juntos e melhorando a vida.
DF - O que você vai fazer quando o Comandante morrer ? MIGUEL - Chorar 3 dias.
DF - Existe controle de natalidade em Cuba ? MIGUEL - Não, você pode ter 1 ou 100 filhos, ninguém fala nada. O governo cuida das grávidas e dos bebês. Todos podem ir a escola e estudar. Aborto não pode fazer mais que 2.
DF - No Brasil aborto é ilegal . MIGUEL - É mesmo ? E como faz quando você não pode ter o filho ? DF - Ou faz ilegal ou tem assim mesmo e cria de um jeito meio inadequado. MIGUEL - Não parece muito lógico...
DF - No Brasil, é comum, os pobres terem um monte de filhos e os ricos poucos. MIGUEL - Isso porque os pobres do Brasil não recebem educação adequada. Aqui em Cuba quem não pode criar, pensa bem e não tem. As pessoas t6em 1 ou 2 filhos no máximo. Foi a primeira coisa que o Comandante disse, na revolução, se queremos melhorar : temos que ter cultura!
DF - Você gostaria de ir para outro país ? MIGUEL - Gostaria de conhecer a Itália e o Brasil. Mas em Cuba só podem sair os artistas e os atletas. Os pedreiros não podem nem mudar de cidade sem permissão. Eu tive que pedir um visto para vir para Havana.
DF - E essa sua tatuagem do Chê ? MIGUEL - ah, ele é meu herói. Eu adoro ele.
Escrito por Duilio Ferronato às 11h28
Cida Moreira

CIDA – Vamos ficar na cozinha porque agora é hora de limpar a sala. Você já almoçou ? DF – Acabei de tomar um sorvete Haggen Dazs na esquina. CIDA – Come com a gente ? Tem estrogonofe de carne de soja, arroz, batata e uma saladinha. DF – Quero. CIDA – Vou pegar um prato. Só que aqui é self-service, cada um pego o que quer.
DF – Quem cozinha ? CIDA – Eu! Eu gosto de cozinhar, pena que não tenha tempo todos os dias, mas o ideal para mim é ter as manhãs livres para cozinhar. E passear com a Billie Holiday , minha cachorra de 10 meses. Ela é ainda muito agitada, cheia de energia e precisa passear muito para ficar mais calma.
DF – Este bairro é bem gostoso de morar, calçadas largas, um monte de vitrines para ver e uns amigos vizinhos. CIDA – É mas já estou aqui há mais de 20 anos, já enjoei. Gostaria de mudar.
DF – Para um sítio ? CIDA – Não, jamais. Cidade, só que outro bairro.

DF – Quantos cds você já gravou ? CIDA – Agora estou gravando o oitavo, é uma pesquisa sobre o Cartola, estamos já entrando na fase da mixagem.
DF – Você ganha bem com a venda dos cds ? CIDA – Nada, as vendas estão cada vez mais estranhas. Parece que é um mercado que precisa de mudanças urgentes. Muitas propostas para vender algumas faixas por internet, baixar de um jeito ou de outro. Mas as vendas do cd mesmo, não dá nada.
DF – E você vive do que ? CIDA – Dou aulas de canto e preparação vocal, que eu adoro. Tenho 20 alunos e sou amiga de todos. São na maioria atores ou cantores. Ganho fazendo shows também. Fazer show é uma delícia .
DF – Você acha que poderia ter ficado rica com música ? CIDA – Eu não segui certos passos para isso. Para ganhar muito dinheiro você tem que se dobrar de muitas formas, abrir concessões que eu nunca abri. Fazer parte de um clubinho ou ter uma veia para isso, que eu nunca tive. Prefiro ser independente. Me ater aos meus amigos e a boa música.
DF – Como você chega nessas pesquisas musicais ? É um projeto antigo ? CIDA – Parece que as pesquisas é que chegam, de certa forma, até você. O assunto vai aparecendo no seu caminho. Vão dando sinais para você ter que prestar atenção naquilo. E você é levada a se envolver. Na minha vida foi sempre assim. O Cartola eu já acompanhava desde menina, minha mãe me levou para ver uma apresentação dele e fiquei alucinada.
DF – Quando você vai fundo numa pesquisa, o que acontece ? CIDA – As conseqüências aparecem em todas as áreas. Estamos numa época de muitas informações rasas e pouca pesquisa. Todo mundo sabe tudo, mas não sabe muito. Então quando você se dedica a estudar um assunto e todas as suas variações você esbarra em muitas questões, que podem ser pessoais e profissionais. Que se misturam muitas vezes.
DF – Eu já ouvi falarem que você é briguenta e brava. CIDA – Eu odeio essas lendas urbanas. Cada vez mais. São coisas que falam sem muito sentido, às vezes porque você brigou com uma pessoa fica com fama de briguenta. Agora brava eu sou mesmo, não gosto de picaretagem e gosto de trabalhar com gente séria. Fazer música boa eu não abro mão. Então... acabam aparecendo essas lendas horrorosas. E parece que as pessoas têm uma aversão às pessoas que têm uma opinião. Se você tem opinião está fora do contexto. E acaba ficando com fama de briguenta.
DF – Eu tenho uma impressão que as pessoas não gostam muito de pessoas felizes e independentes. CIDA – Pior ainda. Se você é feliz e mostra que pode viver sem fazer parte do jogo, você é marginalizado. Tem que fazer parte do jogo da insatisfação para ser aceito. E por incrível que pareça ainda tem gente que acha que ser artista é ser marginalizado ou que não é trabalho.
DF – Você acha que trabalho de artista ainda é considerado um “não trabalho “ ? CIDA – Claro, olha o tanto de gente que liga para pedir convite de graça para seu show. Eles não querem pagar pelo seu trabalho. Acham que se apresentar e cantar num palco não é trabalho.
DF – Parece que o trabalho que é mais valorizado é o trabalho que gera servidão. Que tem um monte de funcionários para exercer uma coisa que você poderia fazer sozinho. E se você faz sozinho, não é trabalho valorizado CIDA – É um resgate a casa grande e da senzala. Até quando isso vai durar ?
DF – Nesse seu bairro é pior ainda... CIDA – O problema está na classe média, que foi achatada nesses anos todos e sem informação repete erros do passado. E acaba sobrando para os artistas, que também vão sendo achatados. Você não acha que é humilhante para mim ter que dizer que não posso dar o convite porque preciso do dinheiro ?
DF – Eu realmente adorei seu show, muito emocionante. CIDA – Obrigada, o André é um grande parceiro e faz desse show uma delícia de apresentar e cantar.

"Canções Para Cortar os Pulsos - A Música de Tom Waits" Até 2 de setembro. Sexta e sábado, às 21h30. Domingo, às 19h Ágora Teatro r. Rui Barbosa, 672, tel. 11 3284-0290
no blog Cacilda tem fotos bem bacanas do show.
Escrito por Duilio Ferronato às 16h10
Conversa com Eytan Fox

DF – quem vive numa bolha e quem vive uma vida real ? EYTAN – isso é uma discussão de horas e até uma coisa meio filosófica... você pode passar sua vida toda numa bolha e mesmo assim ainda estar levando uma vida de verdade. Às vezes, para conseguir sobreviver você precisa se isolar, e isso não faz com que sua vida seja menos real do que a de quem está mais integrado ao cotidiano. De uma maneira ou de outra todos vivemos numa Bolha.
DF – de onde vêm seus personagens ? EYTAN – eles são parte da minha vida, todos têm uma ligação comigo, com minha formação e as pessoas que eu conheço.
DF – o editor ? ele é o malvado do filme ? EYTAN – ele representa o “macho - hetero” do filme, bem de vida mas que foi criado para se relacionar de uma maneira estranha com as mulheres. Um cara que ainda enxerga nas mulheres um objeto e não está muito interessado nelas verdadeiramente.
DF – e por que ele faz aquela sacanagem com o bonzinho ? EYTAN – eu vejo esse tipo de comportamento em muitos homens poderosos, quando estão pressionados, acuados ou sentem medo...atacam! E atacam o lado mais fraco. Fazem você sentir medo para te enfraquecer. No meio político de Israel isso acontece o tempo todo, não sei como é aqui no Brasil, mas lá é assim...
DF – não ! Aqui, no Brasil, os políticos são todos homens de bem...todos jogam super limpo... EYTAN – ahh, deve ser igual em qualquer parte do mundo. Os fortes não podem ser enfrentados, que partem logo para o ataque.
DF - e o namorado, é o novo homem ?
EYTAN - sim, ele é um homem que não precisa provar sua masculinidade, que conquista uma mulher de uma forma mais verdadeira. Não usa antigos dogmas de relacionamento ou métodos de conquistas machistas.
DF – e qual a diferença entre a noiva e a prima ? EYTAN – a noiva é uma vítima do sistema que ela foi criada, ao mesmo tempo que ela tenta visualizar uma vida melhor, querendo mudar de país e levar uma vida em paz, tem um noivo radical e pais que sustentam esse radicalismo. A prima já é uma mulher mais moderna, pensa diferente, mas também entende que vivendo ali não vai conseguir progredir. Fala em ir para Londres e quer levá-lo junto. Uma mulher mais engajada.
DF – e o velho no funeral ? EYTAN – ele representa todo esse sentimento de mesquinharia, revanche...isso de vingança. Talvez esse sentimento seja a base de todo o ciclo doente, que não tem fim. Se esse tipo de sentimento não parar o ciclo não pára.
DF – como parar com sentimentos de raiva, vingança medo que as pessoas têm umas das outras ? EYTAN – parece que o primeiro passo é ouvir o próximo, perceber que ele também tem sentimentos, que é uma pessoa e não um inimigo. Uma pessoa não pode ser considerada inimiga só porque é estranho, só porque você não conhece. Então o primeiro passo é conversar...
DF – aqui no Brasil está muito na moda dizer que os problemas sociais são causados por problemas na educação, então se uma pessoa não recebe educação adequada ela já tem uma probabilidade de desenvolver problemas sociais, como excesso de filhos, morar em lugar impróprios e...todas essas coisas...e com isso os donos de escolas vendem seus produtos como se fossem as grandes soluções nacionais. EYTAN – isso é paternalisar a situação. É achar que porque você teve acesso a uma educação melhor você é superior aos outros, que quem não teve aquilo é tão inferior que não irá conseguir nada. E fazer todo mundo ir a escola não parece que tenha colocado nunca um fim nos problemas sociais. Parece que o essencial é mesmo o afeto e atenção com os outros.
DF – os pais do personagem acidentado, quem são eles ? EYTAN – você viu que eles nem conheciam os amigos do filho, só foram conhecer no hospital... Que tipo de pais não conhecem os amigos dos filhos ? São pais que não conhecem os próprios filhos, estão distantes, não têm um envolvimento afetivo e muito menos de amizade com os próprios filhos. Parece que esse tipo de relacionamento entre pais e filhos leva a um distanciamento que tem resultados estranhos.
DF – como foram parar algumas músicas brasileiras no seu filme? EYTAN – você nem vai acreditar...quando eu estava no colégio, eu e um grupo de amigos descobrimos alguns álbuns de músicas brasileiras e resolvemos montar uma peça de teatro: com as letras de João Gilberto, Tom Jobim, Bethânia... e alguns outros. Montamos uma peça com traduções para o Hebraico que fomos um pouco pesquisando, um pouco inventando...foi um grande sucesso. Apresentamos em vários lugares. E eu era o diretor do show, depois disso resolvi que só poderia ser diretor, queria dirigir teatro, televisão e cinema, aconteceu que fui ser diretor por causa da música brasileira.
DF – como está sendo a recepção do filme nas pré-estréias aqui ? EYTAN – houve uma apresentação do filme no Clube Hebraica, eu estava meio apreensivo e quase nem dormi a noite com medo da reação deles...mas correu tudo bem, ninguém saiu da sala, nem nas cenas mais calorosas de sexo entre um judeu e um árabe, e no fim do filme as pessoas vieram falar comigo sobre o filme, fizeram muitas perguntas e parece que foi bem recebido. Na pré-estréia do Reserva Cultural já foi mais fácil, bebi umas caipirinhas antes do filme, a sala estava lotada...e foi tudo bem. A platéia brasileira é bem animada.
DF – eu gostei muito do filme, espero que seja um sucesso aqui e no resto do mundo. EYTAN – thank you, it was nice talking to you, see you.
Eytan Fox é diretor do filme Bubble - veio para o Brasil para o lançamento do filme, que estréia nesta sexta 17 de agosto.

Escrito por Duilio Ferronato às 20h34
Conversa com Maria

DF – Como você veio parar aqui ? Maria – Foi o Xaropinho que arranjou, primeiro ele disse que era caseiro e que podia vender uns metro pra gente, mas despois veio o Jackson e disse que era mentira, que a terra não era dele e que a gente podia mudar para cá sem pagá nada.
DF – Não tinha dono ou era da prefeitura ? Maria – Na época a gente nem que num sabia direito, porque já tinha tido uma dispropriação em 96, mas a gente viemo despois. Eu encontrei piso e montei meu barraco. O piso já tava lá, mais na dispropriação passa o trator e leva tudo o material, só deixa o piso de alvenaria. Então a gente escolhe o piso e constrói no lugar. Mas bem despois a gente descobrimo que era da prefeitura.
DF – E a prefeitura agora quer o terreno de volta ? Maria – Eles já vinnheram aqui vária veis, mas a gente tá pedindo a Desafetação (mudança da lei de uso do solo) para a gente podê tê algum documento oficial. Sem isso a gente não sabe se saí ou se fica de uma hora para outra.

DF – Então de uma hora para outra a polícia pode tirar vocês daqui ? Maria – Virgi, eles já tentô várias veis. Eu cheguei para o delegado e preguntei porque que ele já num fais uma base lá na minha casa, se ele gostou tanto daqui.
DF – Você bateu boca com o delegado ? Tá com o nome sujo ? Maria – Não num to não ! Deus me livre. Ele grita comigo eu grito com ele, mas não dá nada não. Ele vem chegando, achando que todo mundo é bandido, ladrão e traficante, mas na favela tem trabalhadô também. Tem mãe, tem pai e tem gente de tudo jeito. E bandido é bandido, trabalhadô é trabalhadô. É coisa diferente. Num é purque somo vizinho que somo igual.

DF – E como vocês organizam a comunidade ? Maria – A gente já teve um presidente por 5 anos, mas não resolveu, despois teve um por 2 anos e nada. Agora sô eu. Somo 12 na diretoria.
DF – O que a presidente faz ? Maria – Oia ! Você nem vai acreditá. De tudo, tem um que chama porque a água arrebentou, otro porque não consegue drumi por causa que o vizinho fais baruio, porque outro jogô lixo na frente da casa do otro... Eles acha que eu sô empregada, mais num ganho nada.
DF – O que você já fez ? Maria – Oia, já organizamos uns movimento comunitário de cortar o cabelo das criança, tamo tentando faze uma sopa todo dia para as criança. Porque as mãe não têm como dá comida para essa criançada todo dia. Os que pode têm que ajudá. Aquele barraco ali, morava uma menina com 3 fio. Os fio dela tava tudo que dava dó. Cheio de bichera, a perna tava que só ferida e num comia, nenhum dos coitado. Agora ela tá morando num barraco meió, menos moiado. E as criança têm comida. E assim vai, se uns ajuda os otro resolve.
DF – E você vive de faxina ? Maria – Faço de tudo, o que aparece, mas faxina é o que mais dá. As minhas menina não tá trabaiando, então eu tenho que fazê tudo.

DF – Quem mora com você ? Maria – A Yasmim é minha fia de 15, meu menino tá casado com essa aqui de 15 tamém.
DF – Ela tem 15 e já tem filho ? Maria – Ela já tem 3! Os gêmeos tão lá no abrigo, o juiz tomou, disse que ela não podia cria porque tinha 13. E tomô. Despois que ela conheceu meu fio que tomô jeito. Agora eles teve esse aqui de 5 meis e esse ninguém tira da gente.
DF – E você Yasmim, vai ter filho também ? Yasmim – Nunca, só depois dos 30.
DF – Ufa, ainda bem! Maria – Ela é ajuizada, menina boa, estuda, trabaia ajuda na casa.
DF – Se essa documentação não sair, para onde vocês vão ? Maria – Vai saí, sim. Mas se não saí nois têm que í pra outro canto.
DF – Quantas famílias moram aqui ? Maria – A prefeitura disse que 90, mais a gente acha que tem mais de 200. Cada famía tem mais de 3. Então fais as conta!
DF – E todos com um monte de criança ? Maria – A maioria é mulher sem marido. Fais fio e os homi desaparece.
fotos - Rodrigo Bolzan
Escrito por Duilio Ferronato às 23h12
Conversa com dona Neide

DF – A senhora tem um horta aqui na frente ? Neide – É um pé de jiló e umas ervas, dá bastante.
DF – Está fazendo almoço ? Neide – Tem que forçar os meninos a comer, porque senão eles ficam o dia inteiro comendo pão e não comem comida.
DF – A senhora mora com quem ? Neide – Com as filhas e os netos. Minha filha sai para trabalhar e eu cuido das crianças. Eles vão para escola depois vem para casa para jogar vídeo. Ali naquele quarto nós estamos ampliando, minha filha comprou umas telhas e já aumentamos um pouco a casa.
DF – A senhora nunca tentou morar numa dessas casas do governo ? Neide – Já corri atrás varias vezes, mas é difícil. É que nem ganhar na loteira. Tem muita gente para pouca casa. Só tem as mais caras, mas se a gente vai para uma que tem que pagar 500 por mês, não dá para comer... e as que são do preço bom tem muita gente já na frente.

DF – Vocês estão na fila para comprar ? Neide – Agora eu já não sei, porque eles chamam a gente de 5 em 5 anos, mas quando chamam a gente já não está naquele endereço e eles não chamam mais. Mas nós já estamos comprando os móveis para a casa, quando vier. Estamos com Deus para que ele ajude a gente a conseguir o título desses terrenos para construir uma casa melhor. De tijolo.
DF – E quais seus planos para o futuro ? Neide – Quero morar numa terra minha, nem sei se vai dar nessa vida, mas Deus é quem sabe. Mas não quero mais pagar aluguel. O aluguel dorme com você todos os dias debaixo do travesseiro, não dá sossego.

DF – A senhora não acha que Deus só gosta dos ricos ? Neide – nada disso, É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico.
DF – Não foi um rico que inventou isso para deixar os pobres mais mansos ? Neide – Não, foi Jesus quem disse. E na mão dele nós estamos seguros.
fotos - Rodrigo Bolzan
Escrito por Duilio Ferronato às 23h10
Conversa com Maria Candeias
DF – E onde é sua casa ? Maria C. – É aquela ali, onde tem as menina na frente.
DF – São suas filhas ? Maria C. – A maior é, a menor é neta.
DF – Mas você já tem neta daquele tamanho ? Maria C. – Ochi, já tenho neto mais grande ainda. A menina não deu conta de cuida e deu a criança para outra mulher.
DF – Deu para adoção ? Maria C. – É, quer dizer...deu para a mulher que queria e não podia ter.

DF – e você tem marido ? Maria C. – Quero distância de marido, homem só confusão. Eu me dou bem com os maridos das minhas amigas, mas com os meus não dá certo não!
DF – E você vive do quê ? Maria C. – Nóis somo arretada ! Eu faço o que aparecer...tem uma mulher ali na rua que quer que eu ajude ela a tira a terra da frente da casa dela, eu ajudo, tem uma que quer limpeza, eu faço, faço de tudo para poder colocar uma comida na boca dessas crianças. Sabe eu recebo 80 do bolsa família, mas para alimentar os filhos e os netos não dá. Quando acaba o dinheiro tem que mandar eles irem comer a merenda da escola, que tem dias que é a única coisa que tem.
DF – Mas seus filhos parecem bem... Maria C. – Tão bem, claro, eu corro para por comida, mas esse meu menino tava trabalhando, agora pegou exercito e teve que parar de trabalhar, mas depois engravidou a namorada e teve que sair do exército, agora eu tenho que dar de comer para ele e para a mulher dele grávida.
DF – Ele tem 18 anos e já vai ser pai ? Maria C. – Vai, fazer o quê ? Deus que manda! Mas essa aqui ta com um buraco no dente e não consigo marcar o dentista. Lá no posto de saúde eles atendem muito bem mulher grávida, mas depois que nasce não tem médico para criança.
DF – Aqui vocês fazem alguma trabalho para controle de natalidade ? Maria C. – No posto eles distribuem remédio, mas não tem sempre, e acaba nascendo sem poder.

DF – Mas as meninas não entendem que ter filho muito cedo é meio ruim ? que o namorado vai embora mais rápido. Maria C. – Elas só aprendem depois de 3.
DF – 3 filhos ? Maria C. – É .
DF – Parece que aqui tem mais mulher que homem... Maria C. – Tem muita mulher sem marido, eles bebem e as mulheres põem eles para fora.
fotos - Rodrigo Bolzan
Escrito por Duilio Ferronato às 23h02
Acaba o dinheiro a mulherada some

Seu Silvio – Quer ficar rico ? Compra o Gato e fica milionário. DF - Dá para ganhar quanto ? Seu Silvio – Cada fração no 1° ganha 10 mil. Tudo ganha 100 mil. Dá para viver só de juros.
DF – Mas só 100 mil ! Dá para viver a vida toda ? Seu Silvio – Você compra uma casinha de 30 mil, investe num negocinho de uns 30 ou 30 e pouco e dá para ir vivendo tranqüilo.
DF – O Senhor conhece alguém que já ganhou ? Seu Silvio – Eu mesmo ! Já ganhei o prêmio máximo. Foi dinheiro que não acabava mais, naquela época, eu tinha uns 40 anos...
DF – O senhor fez o que com o dinheiro ? Seu Silvio – Ah, gastei tudo com a mulherada. Diverti muito. Todo dia era umas 3 ou 4 para o apartamento. Eu comprava sapatos para elas, bebida ...era farra todo dia. Passei uns 5 anos só gastando. Naquela época os juros eram de 60%, você gastava e no fim do mês o dinheiro tava lá de volta.
DF – Acabou tudo ? Seu Silvio – Faz tempo, e você sabe, quando acaba o dinheiro, a mulherada some. Nem adianta ser bonito, tem que ter dinheiro!
DF – E agora o senhor é aposentado ? Seu Silvio – Eu já dei entrada, mas eles nunca aceitam. Eu sempre trabalhei sem registro. Desde menino, mas tem um advogado que está dando entrada para mim. Ele disse que depois que sair ele fica com as 3 primeiras parcelas...vou fazer o que ? Se já tentei de tudo que é jeito e eles não me dão a aposentadoria ?

DF – Quantos anos o senhor tem ? Seu Silvio – 73, nasci em Minas, mas fui morar no Rio quando meu pai morreu e depois vim para São Paulo e nunca mais quis ir embora.
DF – E os filhos e a mulher ? Seu Silvio – Eu casei uma vez, ela teve uma filha, mas com 15 dias foi embora e eu nem sei para onde. Parece que foi para Goiânia, mas não sei. Nunca deu notícia.
DF – E irmãos e mãe. Seu Silvio – Já morreram tudo, não tenho mais ninguém.
DF – E vendendo loteria dá para viver ? Seu Silvio – Olha eu tenho que pagar 17 por noite no hotel, o resto é para comer e comprar remédio. Todo dia tenho que fazer o dinheiro do hotel, isso é em primeiro lugar.
DF – Por que o senhor não mora num albergue da prefeitura ? Seu Silvio – Sabe como são os albergues ? São um monte de camas, e você tem que dividir o quarto com gente que não é muito limpa. E eu fiz uma cirurgia e tenho dificuldade de ir ao banheiro. Tem dia que eu fico 2 horas para fazer cocô. E vêm os caras sem paciência e ficam batendo na porta. Não dá para ficar no albergue.
DF – Que cirurgia foi essa ? Seu Silvio – Ih, doeu muito. Eu comecei a sangrar toda vez que ia urinar, depois começou a sangrar o tempo todo. E eu não ia ao médico, fiquei assim uns 9 meses, mas o porteiro do hotel um dia chamou o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e eles me levaram de ambulância. Fui parar lá na Santa Casa. Eu achava que os médicos matavam as pessoas, eles mataram o Tancredo, o Mário Covas o Cazuza... Tinha medo de médico.
DF – E sarou ? Seu Silvio – Essas coisas não saram, melhora, mas não sara. Eu tive que ficar lá 7 dias para eles descobrirem o que eu tinha. Quando você chega lá, é atendido por um médico que vai passando para o outro, e assim vai até você passar por uns 10. E então eles descobrem. Fizeram uns exames ruins pra burro. Eles enfiam uma sonda dentro de você e empurram. A cabeça do pinto fica inchada, dói de ver estrela. Sem anestesia! No osso!
DF – Era próstata ? Seu Silvio – Foi câncer. O médico chegou e disse : “ vamos ter que operar urgente e capar , concorda ? “ Eu concordei e ele operou e tirou meu saco inteiro. Tirou bastante coisa lá de dentro, a Ana Maria Braga já teve câncer também, mas o dela sarou mais fácil.
DF – E o senhor se recuperou bem ? Seu Silvio – Sabe como é. Eu tinha que pagar minhas contas, então tive que sair vendendo loteria 1 dia depois da operação. O médico não deixou, mas eu ia fazer o quê ?
DF – Voltou para o mesmo hotel ? Seu Silvio – É, lá que é minha casa. Tem banheiro dentro do quarto e posso ficar sossegado. Tem quarto de 12, mas sem banheiro. Ai, não dá.
DF – Quanto custa cada fração ? Seu Silvio – 3
DF – Tem troco para 50 ? Seu Silvio – Não, mas eu troco ali. Você fica aqui e vai vendendo os bilhetes e eu já volto.

DF – Eu vendo por quanto ? Seu Silvio – Você fala para as pessoas que elas vão ficar ricas e vende por 3 cada...Eu já volto, vende tudo aí. DF – Pode ir que eu vou tentar ...
Depois de alguns minutos.
Seu Silvio – Vendeu ? DF – Não consegui vender nada. As pessoas acharam que eu estava brincando.
Seu Silvio – É que você é muito moço para vender loteria. Isso agora é coisa de velho. Você vai ficar com quantas ?
DF – 2 gatos e 2 macacos. Seu Silvio – Ninguém gosta muito do macaco, não sei porquê. Mas muita gente já ficou rica com o macaco.
DF – Então dá para ganhar 20 mil com estes 2 pedaços ? Seu Silvio – É, no 1°, no segundo vai diminuindo...mas dá para ganhar sim, é só ser positivo. Quando eu ganhei foi porque ninguém quis comprar o bilhete, sobrou na minha mão, fiquei sem comer por causa disso, mas ganhei e deu para fazer um monte de coisas. Às vezes a sorte vem e a gente tem que aproveitar e viver bem feliz, fazer tudo que gosta.
Escrito por Duilio Ferronato às 14h23
CONVERSA COM BETINHA.
Betinha é uma mãe social da Organização Aldeias Infantis SOS Brasil. Ela tem 8 filhos, 5 meninos e 3 meninas além dos 3 filhos biológicos. Ela mora numa das casas da aldeia, com 3 quartos, 2 banheiros, 1 sala e uma cozinha bem espaçosa. O projeto é muito bacana e as crianças parecem ser muito felizes lá. Vou falar mais sobre a Organização na próxima quarta-feira, 16 de maio.
www.aldeiasinfantis.org.br

DF - Como você veio para aqui ?
Betinha - Bem meus filhos já estavam criados, eu estava trabalhando com meu irmão numa papelaria. Fui procurando na internet algum trabalho social. Eu já sabia que queria trabalhar com crianças. Contribuir, mas não tinha ainda idéia que iria me envolver tanto. Vim conhecer, fiz o programa de treinamento e ganhei esses 8 filhos lindos.
DF – Tem de todas idades ?
Betinha – A mais velha tem 17 e a mais nova 4. Os meninos têm de 11, 12 , 16 e 8. Alguns estão ali no quintal, um deles está lá aprendendo a lavar a roupa dele. Acho que tanto os meninos como as meninas têm que aprender de tudo numa casa. Não se sabe como vai ser a casa deles depois que saírem daqui, então é bom aprender. Assim não ficam dependentes de ninguém. Eles sabem cozinhar, fazer suco, arrumar o quarto. Não vou dizer que é “aquela arrumação”, principalmente os meninos, que são mais bagunceiros. Mas arrumam.
DF – Tem dia certo para faxina ?
Betinha – É assim : em dias bonitos, como hoje, eu chamo os que não estão na escola e faço uma proposta de limpar a sala. Aí todo mundo faz junto. Fica mais fácil quando todos colaboram. Tem dias que as crianças cuidam do jardim, das árvores e das roupas delas.
DF – E as lições ?
Betinha – Isso tem que fazer todos os dias. Eu tenho esse carimbo aqui, que coloco em todas as folhas do caderno. Tá vendo ? Assim eles sabem que eu estou de olho no que eles andam aprontando. Você sabe, né ? Criança se não fica de olho elas aprontam mesmo. E 8! Eu tenho que ficar esperta senão eles me passam pra trás. Eu mandei fazer este carimbo, assim fica mais chique. Antes eu só assinava, mas agora mandei fazer este carimbo com data e meu nome. Assim eles também ficam mais ligados que eu estou de olho.
DF - Eles são bons alunos ?
Betinha – Alguns são. Outros mais ou menos. Mas quando eles apontam comigo eu me vingo e vou lá na porta da escola e fico mandando beijinho para eles, dando tchauzinho, essas coisas de mãe. Eles morrem de medo de eu fazer isso. No dia que eles sabem que eu vou a escola eles todos se escondem... têm medo de pagar mico, mas se eles me fazem pagar mico eu faço eles pagarem mico também. Fico chamando eles de amorzinho, de meu coraçãozinho, meu filhinho, tudo isso na frente dos amigos deles. Assim eles não me fazem passar vergonha também.
DF - Todos te chamam de mãe ?
Betinha – Todos, eu sou mãe deles mesmo. Considero todos meus filhos. Às vezes me chamam de tia, às vezes de mãe. Quando estão querendo alguma coisa sempre me chamam de mãe. Quando estão bravos comigo chamam de tia.
DF - E as contas da casa ? Eles participam ?
Betinha – Ah, sim claro. Eu mostro para eles quanto nós recebemos da organização, depois dividimos assim : alimentação, escola, roupas e luz e se sobra podemos ir numa lanchonete, passear. Se todos economizam no tempo de banho a conta de luz vem mais baixa e sobra para o almoço fora. Que todo mundo gosta.
DF - Vocês pagam a luz ?
Betinha – Cada casa da aldeia tem uma conta separada. É uma casa como se fosse uma casa independente. Assim todos crescem com uma noção de sociedade, não de lugar protegido. É uma aldeia, mas é integrada a sociedade. Todos podem entrar e sair, é só avisar e não voltar tarde. Pode até namorar. A minha mais velha, agora está namorando, mas eu fiz ela trazer o menino aqui para fazer o teste do sofá.
DF - teste do sofá ? coitado.
Betinha – é ! tem que fazer, senão eles perdem o pé. Eu tenho que conhecer os namorados e namoradas. Eu sou uma mãe ciumenta. Quero meus filhos perto de mim.
continua...
Escrito por Duilio Ferronato às 11h37
continua...

DF - Você tem uns dias de folga, o que você faz ?
Betinha – Os orientadores dizem que a gente tem que dedicar esse dia só para nós. Não ficar aqui. Ir passear, visitar família. Eu visito meus filhos, vou ver meu netinho. Que está lindo. Cuidar de 8 filhos é muito cansativo, então tenho que descansar de vez em quando. Mas não consigo ficar longe muito tempo. Sou muito apegada aos meus filhos sociais.
DF - E o que você faz com seu salário ?
Betinha – ai, isso é difícil. Porque meus filhos biológicos abusam. Eles me pedem para ajudar a pagar isso e aquilo. E eu também compro umas roupinhas para mim, dou uns presentinhos para as crianças...Mas também consigo guardar um pouco.
DF – Até quanto tempo você pretende ficar aqui ?
Betinha – isso eu não sei dizer. Gostaria de ficar até ver um resultado do meu trabalho, concreto. Ver que as crianças cresceram. Viraram adultos responsáveis, casaram. Já montaram suas famílias. Um tempo certo eu ainda não tenho. Mas vou ficar bastante. Aqui |
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