No último 27 de junho João Guimarães Rosa faria 100 anos, mas só chegou até os 59. Morreu cedo, muito cedo. Poderia ter produzido muito mais.
Ele sempre teve medo de atravessar o rio, como o vaqueiro que sabe que tem que fazer, mas depois que chegar do outro lado não vai saber como será. Assim foi com ele, atravessou o rio e morreu, não teve mais nada para fazer.
Na escola as professoras obrigam a gente a ler alguns livros, mas só tive uma que inspiravae incentivava. Já falei dela, ela era parecida com a Mulher Maravilha, quando disfarçada. Eu adorava aquela professora. Ela me disse que eu tinha que ler “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Li. Foi um desses livrinhos que nunca esqueço. Leio sempre. Quase todos os anos. Não sei de cor, mas enquanto leio é como esquiar pelas palavras, elas passam suavemente.
Fica só a sensação. Não é mesmo para decorar. Nunca consegui entender amigos que vivem repetindo frases de escritores, de poetas ou sei lá. Eu só lembro da sensação, nunca consigo lembrar das palavras. É como pular na água de um lago. A sensação é a melhor do mundo. Mas não trago um pouco da água comigo, deixo lá. Quando der, volto para outro mergulho.
Agora estou relendo “Diálogos de Platão”, já tinha lido há muito tempo, nem lembro quando. Agora leio de um outro jeito. Com a provável idade que eles, os gregos, tinham quando conversaram. É outra experiência. Ler aos 20 é bem diferente de ler aos 40. Os livros têm significados diferentes a cada fase da vida. Vou terminar e deixar um bilhete para eu reler quando chegar aos 60 e depois aos 80 e se der tempo aos...bem não vou ficar aqui prometendo coisas que não sei se vou querer fazer quando chegar lá.
O terminal já foi chamado de Largo do Riachuelo, já foi parada de tropeiros e já foi um conjunto de chácaras de italianos.
Hoje é um vai e vem de ônibus sem parar. O bilhete único veio para fazer as pessoas se movimentarem muito mais. Euando muito de ônibus, sem nem pensar no preço da passagem. Carrego meu bilhete e vou para todos os lados.
Cada vez mais estou tentando não andar de carro. Só fico estressado e ainda com dor nas costas. Os ônibus estão muito melhores, um pouco mais confortáveis; apesar dos bancos serem estreitos, mas sempre tem lugar para sentar.
Claro que eu não me arrisco a andar nesses horários de gente que tem emprego de semi-escravo. Meu trabalho é desses que me permite andar a tarde pelas ruas, quando tem pouca gente e às 6 da tarde ou estou em casa ou em algum lugar bem longe do trânsito.
Voltando ao terminal. É o mais movimentado da cidade, recebendo mais de ...esqueci! depois eu volto lá no site da prefeitura para ver. Melhor, você já conhece o site da prefeitura ? www.prefeitura.sp.gov.br aproveite se você tem dívidas de IPTU e faça um parcelamento, só leva algumas horas de fila, mas o desconto vale a pena.
Lá do 41o andar do Edifício Itália o som parece ser a coisa menos importante do mundo. Se não fosse pelo Julio eu nem teria escutado nada. Os olhos dominam todos os outros sentidos.
Mas se você ficar sozinho bem na beirada, vai sentir um vento entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Junto vem um som baixo-contínuo da cidade. E um pouco abaixo : trânsito de helicópteros !
Os nossos microfones captam as interferências das antenas, dá até para imaginar que se as ondas afetam os microfones, o que será que acontece com nosso corpo ? Um dia ainda vão descobrir que essas ondas fritam a gente por dentro; talvez já tenham descoberto, mas não vão falar nada.
desenhar é quase impossível
o por do sol vale até pelo preço abusivo do lugar
((Zunido )) foi gravar a Paisagem Sonora no Terraço do Edifício Itália. Click no play para ouvir.
Os paulistas não podem mais viver sem os camelôs. Na verdade a história da cidade está vinculada à história dos ambulantes.
Até 1800 a cidade só progrediu graças aos acampamentos dos bandeirantes e tropeiros que tinham dois pontos preferidos : um era o largo da Memória e o outro a praça da Luz.
Nesses dois pontos os tropeiros acampavam e vendiam suas mercadorias. Muitos não eram bem vindos na cidade, ou por escravizarem índios, coisa que os jesuítas não permitiam, ou por serem criminosos procurados.
No início do século 20, lá por 1920, era comum as pessoas irem até o largo da Luz na feira livre. Era um mercado a céu aberto que vendia de tudo. Os ricos preferiam comprar nas lojas chiques da rua São Bento, 15 de Novembro e rua Direita. Mas os mortais comuns iam às feiras de ambulantes para comprar similares.
O tempo passa, os bandeirantes e tropeiros não existem mais; a feira da Luz acabou há quase um século, mas parece que a coisa continua muito parecida.
Outro dia fui à missa no Largo da Santa Cecília e o padre falou que sabia que ali havia muitos indivíduos que se diziam crentes em Deus, mas só na hora do aperto. Nas horas boas esqueciam de Deus. Eu achei que ele estava falando comigo. Deu até um pouco de vergonha.
Até tento ser mais religioso, tento me dedicar a alguma espiritualidade...mas devo confessar: nada disso me convence. Não consigo gostar das histórias da Bíblia, não gosto do cristianismo, nem do judaísmo, nem islamismo, muito menos dos evangélicos (aliás esses até tenho uma certa birra), também não gosto dessas religiões da moda : budismo, essas todas de gurus e nunca consegui gostar das macumbas e religiões africanas. Os rituais, até gosto de ver, quando não caem no patético.
A fé das pessoas sempre foi o que mais me impressionou; sei muito bem que a fé deveria ser o centro de tudo. A fé burra, a qual alimenta essas religiões preconceituosas e guerreiras, prefiro ficar longe.
Cada dia ficamais claro que acredito no esclarecimento humano. Ou seja : quanto mais esclarecida, mais próxima de Deus uma pessoa fica. A falta de esclarecimento aproxima os coitados das religiões aproveitadoras e os distancia de Deus.
Dos templos, igrejas e locais religiosos não dá para não gostar; só de entrar já é bom. Alguns têm certa atmosfera boa e saudável.
A primeira vez em que eu vim para São Paulo foi de trem. Levava 7 horas de Avaré até aqui. Quase morri de tédio. O vagão-restaurante era a melhor parte. Nas curvas o prato saia deslizando pela mesa.
Não descemos na estação da Luz , foi na vizinha, onde é hoje a Sala São Paulo.
Meu tio foi buscar a gente de carro. Mas como ele tinha um fusca, tivemos que mandar as malas de algum outro jeito, que ficou meio nebuloso na minha memória.
Mas o tamanho da Estação foi o mais impressionante. Lá em Avaré a estação já era grande, para mim que só tinha 5 anos. A daqui era como uma coisa inimaginável. Quase como estar dentro de uma baleia.
O mais incrível é que lembro de todos os sons daquele dia. O homem no auto-falante e as pessoas falando com sotaque diferente. O som de multidão que não dá para ouvir no interior do Estado. É coisa que só acontece nas cidades grandes.
Esse som de fundo, de várias pessoas falando ao mesmo tempo, andando e carregando coisas. Em São Paulo as pessoas estão sempre carregando alguma coisa.
O som da Estação não mudou muito nesses...quase 40 anos. Talvez, o auto-falante esteja um pouco mais claro e tenha ainda mais gente.
Só que toda vez que entro lá... é como a primeira. Mesmo nos andares superiores, onde hoje está o Museu da Língua Portuguesa, dá impressão que estou chegando de mala e cuia.
Só faltou a voz da minha mãe dizendo : cuida do seu irmão!
(( Zunido )) foi dar um passeio pela Estação da Luz e gravar a paisagem sonora. Click no play para ouvir.
Você consegue escutar o som que seu sapato faz enquanto você anda ? E o som do atrito dos seus braços contra seu corpo ?
Se, até esses seus próprios sons já são difíceis de serem percebidos, imagine quantos sons você deixa passar. Talvez a audição seletiva nos proteja de enlouquecer, mas também nos priva de perceber sons muito estimulantes.
Já prestou atenção nos sons ao seu lado ? Não aqueles sons chatos, mas os sons que passam despercebidos. É um universo totalmente novo. Ele esteve sempre ali, ao seu alcance e, mesmo assim, você deixou passar.
O programa ((Zunido)) foi dar uma volta por um bairro calminho da cidade.
click no play para escutar
O programa (( Zunido )) será postado semanalmente e vai percorrer diferentespaisagens sonoras. É produzido em parceria com Julio de Paula.
É um daqueles parques tranqüilos. Fica próximo a estação Barra Funda do metrô.
Um lugar gostoso para tomar café da manhã. A Casa do Caboclo faz um café de coador e um bolo de fubá daqueles de antigamente.
Os patos e gansos chegam pertinho e se você não prestar atenção, eles roubam seu bolo.
Na área de leitura é muito silenciosa, fica afastada do parque das crianças. Eles emprestam livros, revistas e jornais. As cadeiras são confortáveis e dá até para tirar uma sonequinha.
O (( Zunido )) foi lá gravar os sons do lugar : Crianças, brinquedos, trenzinho e aves. Não deu para gravar a conversa das tartarugas e dos peixes; porque eles falavam muito baixo, mas o resto gravamos tudo.
clique no play para escutar ( ainda estamos aprendendo a lidar com esse player )
((Zunido)) será um programa de experimentação sonora, com pequenas peças que desafiam a escuta.
A idéia é aguçar os ouvidos para os ruídos e silêncios da cidade: a paisagem sonora (todo o ambiente acústico, qualquer que seja sua natureza).
O conceito de paisagem sonora, ou soundscape, foi proposto pelo compositor e pensador canadense Murray Schafer, em meados dos anos 60.
((Zunido)) será produzido em parceria com Julio de Paula, que é diretor de programas da Cultura FM (SP) e professor de montagem (som) da Faculdade Cásper Líbero.
Quando não tenho nada para fazer dá mais tempo para prestar atenção nas conversas alheias. Mas quando estou atolado de trabalho, mal consigo olhar para as pessoas. Gostaria de ter mais tempo para prestar atenção nas conversas e nos movimentos das pessoas.
Às vezes consigo sair só para observar e consigo pegar uns trechos de conversas:
2 meninas no metrô sem conclusão
-todo mundo pagou para fazer o trabalho
-eu fiz tudo sozinha !
-eu também !
-eu só paguei para fazer a revisão e a conclusão.
-Ah, a conclusão a Célia fez para mim.
-Esse professor é muito chato, nem dá para entender pra que serve a conclusão!
-É mesmo ! o mais importante é o resumo.
2 garotos no ônibus com vocabulário próprio
-a mina só sai com cara gay
-por quê ? será que ela acha que os caras vão arrumar o cabelo dela ?
-sei lá ! Cada mina com sua entidade. A entidade dela é essa, vamos respeitar.
2 moças boazinhas
-só tem menina com veneno na loja
-aquele Gisele é a pior
-ela só porque tem um lance com o gerente pensa que manda
-deixa a mulher dele descobrir
-acho que a gente devia avisar
2 homens honestos
-estou esperando sair o auxílio desemprego
-mas você já não está trabalhando ?
-estou, masa Caixa não pode saber
-ah, como faz para conseguir ?
-tem que dar entrada nos papel, tem um broder que arranja