Blog do Duilio
 

Kalaban

 

Temos vários tipos de inspeção no navio. A mais comum é a de limpeza – sanitation inspection – que também é a mais chata.

Os inspetores podem ser: do país por onde passamos, da própria empresa, da comunidade européia ou da Carnival, que é a corporação dona do navio. Não pensem que por serem inspetores europeus ou americanos que eles não são facilmente convencidos a esquecer alguns deslizes nossos, claro que isso tem um preço (nem preciso explicar muito isso porque os nossos inspetores são bem parecidos).

E hoje tivemos um inspetor de segurança do trabalho, ou seja, todo mundo teve que usar luvas de segurança na cozinha, cintos para carregar peso, e fazer tudo de acordo com normas de segurança do trabalho. Na verdade sempre fazemos quase tudo de acordo com as regras, mas algumas regras são um pouco contraditórias. O inspetor de vigilância sanitária não quer saber de luvas de segurança porque elas são de tecidos e podem juntar bactérias, já o de segurança não quer nem saber e se pegar alguém cortando alguma coisa sem as luvas vai querer a parte dele em euros ou aplicar uma multa. Para satisfazer todo mundo usamos as luvas de segurança por baixo das luvas plásticas, que deixam seus dedos tão protegidos que não dá nem para mover.

E os chefes ficam sempre de olho para ver se todo mundo está respeitando essas regras. Hoje estava todo mundo muito atrasado e o encarregado da cozinha me disse para ficar vigiando para ver se nenhum inspetor ou chefe aparecia para ele poder fazer as coisas sem as luvas plásticas. E claro que quando ele tira a dele todo mundo tira também. A senha era a seguinte: se eu visse algum deles chegando eu teria que dizer Kalaban, que quer dizer inimigo em Tagalo – língua dos filipinos. Essa era minha missão especial. E fiquei cortando as berinjelas e olhando para a porta o tempo todo. E por um minuto me distraí e já senti uma presença chegando por trás. Era o chefe. Não deu tempo de nada e ele já começou perguntando porque eu não estava usando as luvas plásticas.  Um dos filipinos deu sorte de nessa hora estar limpando a mesa para começar outra coisa, o encarregado estava preenchendo um relatório, o outro cozinheiro estava lavando tomates e o outro tinha saído para buscar alguma coisa. Só eu mesmo fui pego cortando legumes sem as luvas plásticas, mas todo mundo estava fazendo o mesmo uns segundos antes. Fiquei com a maior cara de tacho, pedi desculpas e comecei a colocar as luvas. Ele já esbravejou dizendo que se fosse um inspetor da vigilância sanitária o navio teria que pagar uma multa alta.

Assim que ele saiu todos riram muito. Na minha primeira missão como espião, fui morto dormindo.

Escrito por Duilio Ferronato às 19h38

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Os bebuns e os drogados

 
 

Os bebuns e os drogados

 

Nem precisa dizer que aguentar bêbado é uma coisa chata. E aqui no navio tem bêbados aos montes. Um colega disse que não bebia em terra, agora bebe todos os dias. Um outro disse que chega a beber 8 cervejas antes de ir trabalhar e não é difícil encontrar tripulantes bebendo nos portos antes de voltar ao trabalho. Parece que aquela lenda de que os marinheiros bebem muito é verdadeira.

Trazer bebidas para o navio é proibido, mas todo mundo faz isso. Principalmente vodka e whisky, que são bem baratos no duty free dos portos. Na loja do navio também não é muito caro, mas parece ser mais emocionante trazer escondido para bordo. Eu nunca tive coragem, mas ando pensando em comprar um Black Label em Palermo que vi por EU 35,00.

 

Nas cabines, os tripulantes podem ter no máximo 2 garrafas de bebidas por pessoa. Na minha tem sempre umas 8, mas nenhuma é minha. Meu cabin mate – colega de cabine – é mineiro e gosta de beber, tem um outro vizinho paranaense que para poder começar o dia precisa de pelo menos um conhaque, tem um filipino que bebe uma garrafa de vinho sozinho durante o trabalho (escondido, é claro) e no crew bar – bar da tripulação - tem sempre alguém dormindo nos sofás de tanto beber (os barmen sempre param de servir quando percebem que o sujeito passou do ponto – ou deveriam parar).

 

Um jeito de se conseguir vinho é tendo algum tipo de máfia com os garçons, eles trocam vinho por algum tipo de serviço. Para trazer para cabine mais de uma garrafa você precisa ter algum tipo de máfia com o lixeiro, ele coloca as garrafas no carrinho de lixo e despacha na sua cabine, é claro que isso também tem um preço, que normalmente é uma garrafa ou umas cervejas.

Beber parece ser um refúgio bem fácil por aqui, os maconheiros não se arriscam mais a comprar nos portos, os da cocaína entram em falência em pouco tempo (a cocaína é muito cara aqui). Um colega disse que no mês passado gastou EU 1.200 com pó. O sujeito vem para trabalhar no navio para poder juntar dinheiro e acaba gastando com besteiras. E droga é uma das besteiras mais bobas. Tem sido cada vez mais comum ouvir brasileiros dizendo que já estão no fim do contrato e que não juntaram nada de dinheiro, ou compraram muitos eletrônicos e roupas ou beberam e se drogaram. Claro que ao contrário disso alguns juntam quase EU 10 mil, coisa difícil de fazer para quem não tem um objetivo fixo.

Escrito por Duilio Ferronato às 10h57

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Kalo no pé | PermalinkPermalink #

Berinjela com ricota

 
 

Berinjela com ricota

 

Não é a coisa mais fácil de se fazer, mas fica muito bom.

 

Primeiro fatie a berinjela, depois  deixe na geladeira marinando por 1 noite (aqui eles colocam sal e um pouco de pimenta, mas acho que em casa seria melhor marinar com azeite, sal e pimenta – talvez um pouco de alho). Na manhã seguinte grelhe sem muito óleo - a berinjela solta bastante água.

 

O recheio, aqui no navio, é com ricota, ovo e manteiga. Mas quando eu fizer em casa acho que vou tirar o ovo e colocar parmesão, farinha de rosca e leite ou creme de leite e também salsinha e manjericão. Tente você e me diga como fica melhor.

 

Depois é só enrolar o recheio nas fatias de berinjela e colocar no forno com azeite por alguns minutos (aqui deixamos 15 minutos na temperatura de 140º. Talvez fique bom com um pouco de molho de tomate, os italianos gostam só com azeite.

 

Fazemos, num jantar, 1000 porções e não sobra nada. Só que nesta semana não consegui fotografar quando estava pronta porque esqueci a câmera na cabine, mas na semana que vem faremos outra vez, fotografo e coloco aqui.

Escrito por Duilio Ferronato às 19h33

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cumidinhas | PermalinkPermalink #

Frutas e verduras

 
 

Frutas e verduras

 

Um pouco antes de chegarmos a Europa o chefe da cozinha fez uma reunião e disse que as coisas iriam mudar. Começou assim:

O passageiro brasileiro quer saber de quantidade, não está interessado se o prato está quente ou frio, se a comida está salgada ou com açúcar. Eles só querem saber de comer muito e várias vezes por dia! (não dá para dizer que ele estava muito errado) e continuou: o passageiro europeu come menos, com menos sal e é mais exigente. O europeu quer prato quente, com boa apresentação e repara se um prato vem montado diferente do outro. (também é verdade).

Ele só não estava muito certo quando disse que europeu comeria menos, isso não está parecendo. Desde que os passageiros mudaram a comida só tem aumentado.E não há mais passageiros brasileiros. Tudo dobrou, menos as carnes. Os europeus comem muito mais frutas, verduras e legumes enquanto os brasileiros estavam mais interessados em carnes, feijão, arroz e pizza. Isso ficou muito evidente na cozinha.

 

Os europeus respeitam os horários dos restaurantes sendo muito pontuais. Os brasileiros queriam comer mesmo quando o restaurante já estava fechado e ainda brigavam quando chegavam atrasados e eram avisados que já estava fechado. Os europeus chegam exatamente na hora marcada e ficam precisamente o tempo reservado para eles. Bebem vinho, água e dão gorjetas. Já os brasileiros chegavam atrasados, ficavam pelo menos meia hora a mais do que a reserva e bebiam cerveja, muito refrigerante e raramente davam gorjetas.

 

No Buffet deu para perceber muita diferença na quantidade de comida nos pratos. Os europeus colocam aquilo que vão comer e raramente jogam comida fora, no Brasil as pessoas enchiam o prato com um pouco de tudo e depois jogavam muita coisa fora. O europeu pega apenas 1 guardanapo e o brasileiro pegava um pacote.

 

Não é raro escutar um comentário de alguma recepcionista dizendo que o cartão de crédito do brasileiro não autorizou a débito para os gastos do bar ou da loja, já o europeu traz o dinheiro contado para todos os gastos e pagou a vista pelo cruzeiro.

 

Nos cruzeiros brasileiros as festas eram muito animadas e as pessoas estavam sempre sorrindo, as festas dos europeus têm hora certa para acabar e são sempre meio chochas.

 

Um pouco mais 2 meses trabalhando como cozinheiro no navio e parece que já estou aqui há anos.  

Escrito por Duilio Ferronato às 19h36

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Kalo no pé | PermalinkPermalink #

Cortou o dedo e foi embora

 
 

Cortou o dedo e foi embora

 

O Shivasangra é um indiano muito bacana. Embarcou em Santos no início de fevereiro , para isso teve  que  pegar um vôo de 18 horas, desceu em Guarulhos, foi levado até um hotel em Santos e dormiu uma noite lá.  O embarque da tripulação é sempre pela manhã e a empresa paga a passagem e hospedagem de quem vai embarcar ou desembarcar fora de sua cidade. 

Ele tem 32 anos e estudou “Corforting” - hotelaria - em Bombaim. Já trabalha em navios há 7 anos e casou com uma moça indiana que conheceu a bordo há 4 anos. Eles raramente se vêem, ela trabalha em outro navio, mas têm planos de parar de trabalhar a bordo e, com o dinheiro que juntaram, montar um pequeno negócio – talvez um restaurante ou um taxi.

O salário médio de um cozinheiro na Índia é de US 150 e aqui, no navio, ele ganha EU 1000. A cada contrato os cozinheiros recebem um pequeno aumento. E ele já está no oitavo contrato e só ganha EU 200 a mais do que eu. Uma profissão com poucas perspectivas de se ficar rico. Só que com esse dinheiro na Índia dá para fazer muito mais coisas do que se faz no Brasil. Ele já comprou casa para os pais dele, ajudou os 7 irmãos e comprou um apartamento para ele.

Bem o Shiva cortou o dedo ontem na máquina de fatiar frios, arrancou um toco e foi sangue para todos os lados. Ainda bem que eu não vi. Foi levado para a emergência e vai ter que voltar para casa. A tripulação tem um seguro para acidentes que cobre o salário e todo tratamento médico, mas você não pode ficar a bordo, tem que ir embora (querendo ou não).

Muita gente é desembarcada por uma coisa que eles chamam de Medical Off – licença médica. É um jeito de interromper o contrato e poder voltar depois. Se você for demitido ou pedir demissão, nunca mais poderá voltar e ainda ter’a que pagar sua passagem de volta. Na verdade eles descontam EU 80 do nosso salário todos os meses para cobrir a passagem de volta. Se você cumpre o direitinho o contrato até o fim, eles devolvem o dinheiro.

Vai ser mais um dos bons amigos que vai embora. A cada semana parte alguém e ao mesmo tempo chega gente nova. Ainda não chegou o substituto dele, mas não deve demorar. 

Escrito por Duilio Ferronato às 10h33

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Kalo no pé | PermalinkPermalink #

Sacanagem na capela

 
 

Sacanagem na capela

 

Ele já trabalhou em bares, restaurantes, hotéis e viajou pelo mundo. Não quer voltar para seu país por enquanto, ainda quer conhecer mais países e muitas outras mulheres. Agora está trabalhando como barman num navio. Ganha bem, quase EU 2.000 por mês. Gasta muito, mas conseguiu juntar bastante também.

 

E ela veio com o namorado fazer um cruzeiro romântico de Marselha até a Tunísia. São 3 anos de namoro e pensam em ter um filho no próximo ano.

O contato visual entre barman e a ruiva foi no primeiro dia, ou melhor: na primeira hora! O Barman gamou, a passageira estremeceu.

O casal pediu um champanhe para comemorar. Duas taças e frutas no deck, sentados nas espreguiçadeiras com mantinhas azuis cobrindo as pernas. A vista é sempre linda. E o barman trouxe a garrafa e as 2 taças. Abriu. Sem explodir. E eles em silêncio. Mas no balanço do navio uma taça sempre pode escorregar e escorregou. Somente um barman muito experiente não deixaria escorregar, ou deixaria de propósito. Molhou a manta dela e a perna. Ela deu um pulinho e o barman, já estava com um toalhinha a disposição. Passou o paninho na espreguiçadeira e levemente na perna da moça. A eletricidade quase queimou a manta. Mas o namorado não percebeu. Ele era meio devagar para perceber as coisas. Porem sabia ganhar dinheiro e ganhava muito. E o incidente passou sem grandes traumas.

No jantar a mesa foi posta de frente para uma grande janela. A vista ainda continuava incrível. O barman trabalhando no andar acima. Ela sabia, já tinha descoberto pela camareira informante.

Antes da comida ser servida ela disse que iria ao banheiro e subiu correndo para o bar. Ele a viu chegando e só teve tempo para dizer ao chefe que iria ao banheiro rapidamente. Ele saiu na frente andando e ela seguiu.

A capela do navio está sempre aberta e também sempre vazia. Entrou ele primeiro, ela hesitou, afinal uma boa judia não gosta muito de entrar em capelas cristãs, mas entrou. Ele a puxou para trás da porta e rapidamente foi desabotoando a roupa dela. Se houvesse uma profissão de tirador de roupas femininas, certamente ele seria um mestre. Deixou-a vestida de Eva em segundos e ela não resistiu os suas mãos enormes, 1,95 mts  de altura, coxas grossas e braços fortes. Ela viu pouco do corpo dele, já que ele imediatamente a virou de costas, a fez curvar e com apenas uma mão abriu o pequeno envelope reservado no bolso e vestiu o conteúdo. Foram uns poucos minutos de suor, lambidas e tapas nas ancas. Ninguém entrou na capela, como sempre.

Ela voltou para mesa dizendo que tinha levado um tombo na escada e que queria ir para a cabine. O namorado a acompanhou. O barman voltou para o bar e bebeu um duplo para comemorar mais uma.

Escrito por Duilio Ferronato às 19h29

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Kalo no pé | PermalinkPermalink #

Os lerdos

 
 

Os lerdos

 

O lerdo é um tipo de sujeito que deveria viver sempre longe de mim. Tenho uma implicância com gente lerda que já virou daquelas antipatias gratuitas que só de perceber que um sujeito é parvo eu já fico irritado.

 

E meus colegas filipinos, ao contrário, são irritantemente rápidos. Tão rápidos que para fazer o trabalho de um filipino são necessários 2 indianos ou 3 brasileiros. E olha que além de rápidos eles ainda fazem tudo limpo e organizado. De um jeito que eu nem chego perto. Fico imaginando o quanto eu devo irritá-los com minha lerdeza. Mas eles nunca falam, só insinuam. Já os indianos vivem me chamando de lerdo - eles fazem tudo mais rápido, mas muito sujo! Os filipinos dizem que os indianos trabalham com galinha, deixando tudo espalhado e sujo. Pelo menos eu sou organizado e limpo. Aliás, estou começando a acreditar que o que mais estou aprendendo aqui é limpeza. Tomara que não arraste essa mania de limpeza para casa (já sou cheio de manias e, mais uma, meus amigos não iriam aguentar).

 

No navio tem uma regra no restaurante e na cozinha de se andar sempre do lado direito do corredor, assim você não corre o risco de levar uma bandejada na testa. Claro que essa regra nem sempre é respeitada e todo mundo leva pancada na cabeça o tempo todo.

 

Mas andar do lado errado não é o pior, o chato mesmo é quando tem um lerdo na sua frente e ele insiste em andar no meio do corredor, assim ele consegue atrapalhar quem vai e quem vem ao mesmo tempo. Na verdade estou começando a achar que a maior função dos lerdos neste mundo é atrapalhar quem quer fazer as coisas num ritmo mais rápido. Você já reparou que os motoristas lerdos sempre querem andar na pista expressa? Ou que nas escadas rolantes os aparvalhados param bem no meio?

 

Ao contrário dos lerdos também têm aqueles que querem fazer tudo num ritmo estressado, mas esses eu vou deixar para outro dia.

Escrito por Duilio Ferronato às 21h57

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Kalo no pé | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Duilio Ferronato Duilio Ferronato, 46 anos. É arquiteto.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.