A novela, capítulo 8 – encontros
Lá no casarão as pessoas contaram diferentes histórias sobre o atropelamento da Marialva. Ninguém nunca soube direito como aconteceu. As testemunhas sumiram e o culpado nunca foi preso. Uma das testemunhas anotou a placa, a policia chegou a ir falar com o dono do veiculo, mas ele disse que não era ele e ainda tinha um advogado daqueles que conseguem resolver qualquer coisa.
Mas a falta de informação nunca foi motivo para impedir a falação. E o caso virou quase uma lenda dentro do casarão. Cada um contava uma versão. Chegaram até a dizer que ela tinha se atirado de cima do minhocão e caído sobre um carro. Outra versão estranha era de que um assaltante tinha tentado seqüestrar a Marialva para poder roubar o restaurante onde ela era gerente e que ela tinha conseguido fugir e foi atropelada pelo ladrão. Mas isso são conversas que a gente nunca vai ficar sabendo direito como aconteceu. Eu prefiro pensar que ela estava tão feliz, que estava tudo dando certo na vida dela e foi ela quem nem prestou atenção ao farol. Às vezes a gente fica tão feliz que esquece até de comer ou respirar. Deve ter sido o caso dela.
O Mel ficou atordoado. Não sabia o que fazer. Naquela época ele e a mãe já estavam morando em um quarto sozinhos. Ele tinha um pouco mais de 14 anos e o Thiago e o Rafael quase 22. O Thiago e mais 2 amigos resolveram mudar para o quarto do Mel e cuidar dele. Apesar de que ele nem precisava tanto assim de cuidados. Já ganhava seu próprio dinheiro, sabia cozinhar e ia para escola sem que ninguém mandasse. Aquela fase de mau aluno tinha passado totalmente. Agora ele era um bom aluno e queria estudar direito na USP.
O Rafael tinha voltado a ser amigo do Thiago. E se vocês ainda não perceberam a coincidência o Rafael era primo do Mel. E vou dizer mais ainda : eram muito parecidos fisicamente. Como pode a vida juntar assim duas pessoas que a principio nunca mais iriam se encontrar ? Parece coisa de novela.
O Rafael chegou a comentar na casa dele com a Yolanda e o pai sobre o caso do Mel e eles ouviram mas nem chegaram a pensar que houvesse qualquer ligação entre a Gilda, o Joel (que era o sobrinho da Yolanda que tinha engravidado da Gilda – atual Marialva) e o caso do menino orfão.
Mas como esta novela é muito cheia de casos inacreditáveis, aqui vai mais um :
O Rafael convidou os meninos do casarão para irem com ele para a praia. Naquela mesma casa onde os meninos ricos tinham sido presos com a maconha. E claro que todos aceitaram. Afinal ir de carro para a praia era coisa do outro mundo para eles. O Mel já tinha ido até Santos uma vez de van. Foi quase inesquecível, principalmente por causa dos apertos que passaram com a mecânica da van, que resolveu quebrar sem parar, mas a praia foi paixão imediata. Piscina na beira da praia era uma coisa que o Mel nem sabia que existia e quando chegaram na casa de praia do Rafael ele nem entendeu direito porque alguém iria querer ter uma piscina na frente da praia, mas bastou entrar pela primeira vez na piscina para ele entender direitinho porque as pessoas ricas queriam aquele privilégio.
Foi um fim de semana incrível até a hora em que a Yolanda e o marido chegaram de surpresa.
Tudo ia bem, a Yolanda estava de passagem. Ela estava indo para Ilha Bela para a casa de uma amiga e só tinha passado para ver como as coisas estavam. O Rafael não tinha dito para ela que iria levar os amigos pobres para lá, aliás ele nunca deixava ela saber direito que era muito amigo dos moradores do casarão. Ela só sabia que ele nunca tinha se separado do Thiago.
E o Mel apareceu na varanda e a Yolanda imediatamente reconheceu a figura do irmão e do sobrinho naquele menino. Não ficou nenhuma dúvida. Ela quase se desesperou e o marido dela também reconheceu que era muito parecido.
Ela perguntou de onde o Mel era e como chamava a mãe dele. Mas como o Mel nunca soube muito bem a verdadeira história da vida dele, não desconfiou de nada. E a Yolanda insistiu perguntando se Mel era apelido ou nome e ele disse que o nome dele era Joel, como o do pai dele que ele nunca tinha conhecido lá de Alagoas. Ela caiu no choro e o Mel e os outros meninos ficaram sem saber o que estava acontecendo. Afinal ela estava procurando esse menino há 15 anos e nunca tinha tido nenhuma pista. Tinha sido quase uma obsessão. O marido alertou a Yolanda que poderia ser só uma coincidência e ela ficou maluca. Ligou imediatamente para o coronel e disse que tinha encontrado o menino.
O coronel só pensava nesse menino, não tinha ficado sabendo da morte da Gilda, porque como só ela sabia o endereço da família, ninguém nunca foi avisado.
Mesmo com todo o descontrole a Yolanda resolveu não abrir o jogo para o Mel, mas contou para o Rafael toda história.
Na verdade verdadeira ela ficou feliz de resolver este caso, mas ao mesmo tempo ficou preocupada. O coronel, como vocês devem lembrar tinha 2 filhos e 2 filhas. O Joel, pai do Mel, tinha morrido cedo e o outro menino e uma das filhas tinham sido assassinados em uma briga política. Essa é uma história mais que cabeluda que terei que esclarecer numa outra hora. E a última filha do coronel era deficiente mental. A vida não foi muito doce para os descendentes do coronel. A única esperança do coronel seria encontrar esse menino, que na verdade ele nunca soube com certeza se seria menino ou menina. A mãe da Gilda já tinha dado pistas, mas mesmo ela não sabia direito. A mulher do coronel havia morrido de câncer há menos de 1 ano e a filha doente era cuidada por uma enfermeira o tempo todo.
O problema é que com tudo isso a Yolanda, o marido e o Rafael eram os únicos herdeiros do coronel, que nos últimos anos tinham enriquecido muito mais. Na verdade ele já era deputado e estava pensando em ser senador ou governador. A Yolanda, que era mais nova que o coronel, já tinha imaginado que o Rafael seria o único herdeiro do coronel.
Mesmo assim resolveu avisar o coronel. O coronel veio para São Paulo no mesmo dia. E a Yolanda providenciou para que o Rafael convidasse o Mel para ir jantar lá com eles.
O fim de semana dos meninos na praia continuou bem, mesmo depois da visita da Yolanda. O Mel desconfiou de alguma coisa, já que ele já sabia que a família do Rafael e a mãe dele eram da mesma região e que por todos os lados que ele andasse com o Rafael as pessoas sempre perguntavam se eles eram irmãos. Eram realmente muito parecidos.
O coronel tinha um coração de pedra que tinha sido amolecido com as perdas dos filhos e da mulher. Ele agora era todo melancolia e saudade de coisas que ele tinha deixado passar. Era quase uma certeza para ele que poderia recuperar tudo isso se encontrasse o neto perdido.
Nesse meio tempo a Yolanda já tinha ido investigar a vida da Marialva e descobriu que na verdade a Marialva era o nome de uma prima da Gilda que ainda morava lá na fazenda, foi só forçar um pouquinho e a moça confessou que tinha emprestado a certidão de nascimento para a Gilda poder viajar e sumir. O mistério já estava resolvido. Mas o coronel não precisaria ficar sabendo de tudo agora. Ela já estava até um pouco arrependida de ter contado para o coronel sobre o menino.
O encontro aconteceu com tudo ensaiado : a Yolanda disse para o coronel não abrir o jogo com o Mel para que ele não começasse a exigir coisas. Ela realmente acreditava que todo mundo pensava igual a ela. Não era o caso do Mel, que apesar de querer ficar rico, como qualquer um, não pretendia tirar nada de ninguém. Pelo menos, não por enquanto.
O coronel, apesar de não saber das confirmações, não teve nenhuma dúvida. Foi só olhar para o Mel e ter certeza. Ele era igualzinho ao filho dele. Não seria possível negar nada.
No próximo domingo eu conto como foi o encontro.