Vai ficar parecendo coisa de televisão, mas podem acreditar : não é ! É tudo verdade (menos as partes que eu invento).
Como ia contando anteriormente, a dona Consuelo era do interior de Minas, tinha migrado para São Paulo há quase 30 anos, trabalhou de tudo um pouco, como quase todo migrante. Acabou indo parar na casa da irmã do coronel por indicação de uma amiga. Começou como faxineira. -Ah, a irmã do coronel chamava Yolanda-. Uma mulher brava. Não gostava de dar intimidade para os empregados. A Yolanda nunca teve uma conversa amigável com a Consuelo, mesmo a Consuelo tendo trabalhado lá por mais de 15 anos. Parece conversa fiada, mas é verdade. Alguns patrões nunca trocam idéias com seus empregados e nem sabem direito como é a vida deles e muito menos onde e como moram.
A Consuelo quando foi trabalhar na casa da Yolanda já era mãe do Thiago, um menino bem bonito e esperto. Que tinha a mesma idade do filho da Yolanda, o Rafael. Hum, essa dupla ainda vai provocar muito suas mães e alguns leitores mais conservadores, mas hoje vou deixar as histórias dos rapazes de lado e contar só das mulheres. A história deles vai render uns bons capítulos cabeludos.
Bem, voltando para nossa malvada Yolanda : ela veio do Nordeste depois de casar com o filho de outro coronel, que veio para São Paulo administrar algumas empresas do pai. Esse outro coronel era tão rico quanto o pai e o irmão da Yolanda. Bem, isso eu nem precisava falar, afinal, gente rica casa com gente rica.
Compraram uma mansão cafona no Jardim América, ali pertinho do clube Paulistano. Uma casa dessas com colunas, telhado gigante, janelas fora de proporção e muitos carros na garagem. Tinham todos os tipos de empregados. Parecia mesmo coisa de novela. Só não tinham mordomo e nem governanta, porque isso já seria apelar demais neste dramalhão. A Yolanda não levantava nem um dedo para qualquer tipo de trabalho de casa. Dá para acreditar que ela chamava a empregada com um sininho para a empregada pegar uma caneta que estava a dois passos dela ? E depois pagava uma academia para andar na esteira. Vai entender essa gente rica.
A Consuelo era totalmente ao contrário. Preferia andar a pé só para economizar o dinheiro do ônibus. Era naquela época em que ainda não havia bilhete único na cidade e quem tinha que pegar duas conduções, ou três, para chegar no trabalho, acabava andando um bom pedaço a pé para economizar. A Consuelo queria juntar dinheiro para o filho ir para faculdade. Coitada juntou um monte de dinheiro e um dia o Collor tomou tudo dela. Ela quase morreu. Depois recuperou e foi roubada. Dá para acreditar ? Depois dizem que pobre senta ao lado direito de Deus, imagina se sentasse longe.
A Yolanda, ao contrário, adorava gastar. Todos os dias ela comprava alguma coisinha ou muitas coisas. Não dava nada para ninguém. As coisas iam acumulando nos armários sem fim. Mas ela adorava economizar no salário dos empregados. Pagava só o dentro da tabela e nem um centavo a mais. Engraçado que quando ia ao shopping nem prestava atenção nos preços dos sapatos –comprava muitos- e em casa mandava a cozinheira economizar na comida dos empregados. Mas isso já era de se esperar, afinal ela é uma das vilãs desta novela. Mas o que ninguém podia esperar é que a Yolanda e a Consuelo gostavam do mesmo homem.
Nossa ! Isso sim que fez as coisas ferverem. O homem amado pelas duas não era nem o marido da Yolanda e nem o pai do filho da Consuelo. Era um outro, vai parecer coisa inventada, mas garanto que não é !
Era o motorista. Ah, um bonitão. Era o motorista do carro do filho da Yolanda. Um sujeito jovem e com treinamento anti seqüestro. A Yolanda gostou já de cara. A Consuelo, que era mais comportada, foi gostando aos poucos, mas gamou loucamente.
E o safado pegava as duas. Dizia coisas malucas para elas. Para Yolanda dizia que ela era a mulher da vida dele, propôs para ela fugir com ele e ir morar numa cabana na praia. Tudo mentira, é claro. O sujeito era um safado de marca maior. Já para a Consuelo ele dizia que queria juntar um dinheiro para poder comprar uma casa para ela. Nada que convença mais uma mulher rica do que dizer que quer viver com ela numa cabana na praia e para uma mulher pobre que você vai dar uma casa para ela. Isso é uma fórmula conhecida na escola dos safados.
O caso é que as duas acreditaram no motorista. O nome dele era Mário. E o Mário se dava bem todos os dias. E quando não estava com as duas, estava com outras namoradas avulsas. Esqueci de dizer que as duas tinham a mesma idade 29, naquela época. Hoje já passaram alguns anos e elas já estão quase nos 50.
Uma não sabia da outra com o motorista, mas se odiavam sem nem saber porque. A Consuelo fazia o trabalho e tentava evitar a Yolanda o tempo todo. Onde uma estava a outra não estava. Ficavam dias sem se ver, dentro da mesma casa.
Um dia a Yolanda viu a Consuelo com intimidades com o Mário. Isso foi o fim. A Yolanda começou a perseguir a coitada da Consuelo. Tornou a vida da coitada um inferno. Fazia de tudo para ela pedir demissão, mas a Consuelo era do tipo que tinha medo de ficar sem emprego de carteira assinada. Queria pelo menos completar 20 anos de registro. Já tinham dito para ela que se ela completasse 20 anos de registro seria mais fácil de aposentar. Era muito mal informada essa Consuelo e acreditava em tudo que diziam. Agüentou firme todas as provocações. Até que um dia, umas das faxineiras veio fofocar dizendo que tinha visto a patroa num amasso daqueles com o Mário. A Consuelo entendeu todo o motivo da perseguição e ficou ainda com mais raiva. Queria matar o Mário e colocar detergente na comida da Yolanda. Um dia até colocou, mas acabou jogando fora porque não teve coragem de ir até o fim no plano.
Com o Mário ela gritou, xingou e ameaçou, mas acabou acreditando numa desculpinha que ele deu. Ou pelo menos fingiu que acreditou.
Um dia a Yolanda chegou por trás bem na hora que a Consuelo estava limpando um dos banheiros e disse que ela só fazia serviço mal feito e que nem sabia limpar um banheiro direito. A Consuelo não teve dúvida e resolveu enfrentar a patroa. Disse que sabia que ela só estava perseguindo ela por causa do Mário e se ela continuasse com isso ela iria contar tudo para o marido da Yolanda. Inclusive disse que tinha provas fotográficas. Claro que não tinha, mas inventou na hora isso. A Yolanda quase teve um ataque naquela hora. Que petulância da empregada!
Ih, já passei do limite da semana. No próximo domingo eu conto como foi a briga e como acabou esse bafafá.
No Vale do Jequitinhonha é atribuído um dos menores IDH (índice de desenvolvimento humano) do país. As meninas, sem muitas alternativas, ingressam para prostituição com menos de 12 anos de idade. Muitas são mães aos 13.
Uma moça com 5 filhos é normal naquela região e com 11 filhos não espanta ninguém.
Agora, as crianças palestinas começam a voltar para as escolas. Quando a professora pede para elas desenharem, elas desenham guerra, gente machucada e aviões jogando bombas em suas casas.
Por mais estranho que pareça o Vale do Jequitinhonha está muito parecido com a faixa de Gaza. Crianças sem perspectiva e com um futuro já definido. Ou seja : muitas meninas de Jequitinhonha serão prostitutas e terão muitos filhos. E as meninas de Gaza serão mães de filhos que serão terroristas em potencial.
Nas ruas ouço pessoas dizendo que a crise do Oriente Médio não tem jeito, que será sempre assim. E nas áreas semi-áridas do Brasil ? Alguns amigos que moram aqui em São Paulo e têm famíliasmorando nessas regiões do semi-árido dizem que as coisas andam melhorando. Que o Bolsa Família tirou um grande número de pessoas da miséria e que os postos de saúde estão fazendo muito pelo controle de natalidade.
A Jandira, que trabalha na minha casa, disse que as coisas lá por Teófilo Otoni, interior de Minas, andam melhorando a passos curtos, que as escolas estão melhores, os postos de saúde estão mais bem equipados e que na cidade não há mais miseráveis passando fome.
Ao mesmo tempo vi uma entrevista na televisão de uma brasileira palestina que mora na faixa de Gaza -Ela morava no Rio antes de ir para Israel - ela diz que em Gaza se sente mais segura do que no Rio de Janeiro. Parece meio absurda essa afirmação, mas ela deve ter suas razões.
Voltando as crianças : apesar da infância ser uma parte muito pequena da nossa vida, ela é certamente a mais definitiva. Talvez seja ainda mais definitiva do que a faculdade que a gente estude ou nossa profissão. Então parece muito óbvio que com crianças traumatizadas em Gaza e crianças se prostituindo em Jequitinhonha, ainda vai demorar para a guerra do Oriente Médio acabar e também vai demorar para a miséria do semi-árido brasileiro sumir.
Aqui em São Paulo chove quase todos os dias e alaga tudo, e em outras partes do país precisam de carro pipa para abastecer com água.
Hoje choveu tanto aqui perto que nem dava para ver as calçadas. Tudo virou um rio que passava cheio de lixo e água suja. E a chuva caiu de uma hora para outra. Saí de casa e fui a pé até o metrô. No meio do caminho caiu um toró que parecia que o mundo iria acabar. Em alguns minutos o tempo limpou e tudo voltou ao normal, menos o trânsito, é claro, que piorou muito.
Mesmo assim, insisti e fui até o metrô. Até aí nada de novo. Na saída do metrô, lá na estação Anhangabaú ainda não havia chovido, mas é claro que começou a chover assim que eu resolvi começar a subir a pé a rua da Consolação. Eita.
Aqui em São Paulo acontece sempre isso : em um bairro chove muito e no outro não. Ou chove em um de cada vez.
O prefeito poderia começar a recolher toda essa água da chuva e mandar lá para o Nordeste. Assim acabaria com nossos problemas de enchente e o deles de seca. Talvez desse para instalar um grande cano que fosse despejar tudo lá no meio do sertão. O problema é que iria uma água meio suja e cheia de garrafas e papel junto.
Na próxima vez que eu encontrar com o prefeito vou sugerir isso para ele. Quer dizer : vou escrever um bilhete com essa idéia maravilhosa e colocar no bolso dele e depois eu deixo ele falar que a idéia foi dele.Aprendi esse truque na novela do SBT, o prefeito da cidade (acho que chama Vilania ou Tirania ou algo assim)disse que todas as boas idéias são dele e as más são dos outros.
Vi na TV a história de uma mulher que sofreu violência do pai quando criança até o dia em que fugiu de casa. Depois casou com um moço que logo começou a bater nela. Isso durou mais seis anos. Depois ela fugiu e começou a namoraroutro que também batia nela. Isso tudo na frente dos filhos que ela foi tendo com esses namorados violentos.
Uma amiga, espírita, disse que as pessoas antes de nascerem já escolhem todas as experiências que passarão pela vida e que até chegam a escolher doenças e infelicidades para atingirem uma iluminação. Parece ser uma explicação boa para tirar um pouco da nossa culpa terrestre.
Afinal, às vezes, fico pensando porque as pessoas acabam repetindo sempre os mesmos erros. Quando se dão conta já estão dentro de uma situação que já passaram e já deveriam ter aprendido a não repetir, mas repetem.
O caso da mulher que apanhava parece ser parecido. Ela certamente já reconhece um homem violento só de ver de longe, poderia evitar, mas insiste.
Por outro lado tem aquelas pessoas que sempre acertam. Acertam na vida profissional, na vida amorosa e na vida familiar. Nem chegam a ser motivo de inveja de tanta harmonia.
Certamente os filhos da mulher que apanha vão crescer comdistúrbios de relacionamentos, isso já revela uma das teorias mais aceitas da sociedade : você é fruto daquilo queestá a sua volta.
Mas por outro lado tem aqueles que saem de uma família toda bacaninha a vão para o crime. Como é o caso daqueles meninos de classe média alta que acabam traficando ou pondo fogo em índio.
Mas o fato é : como identificar os erros e acertos para não repetir tudo outra vez ?
Do mesmo jeito que existem pessoas que nos despertam coisas ruins também existem aquelas que nos ajudam e dão uma certa estabilidade. Como aqueles que estão sempre nos dando força e a gente nem percebe. Alguns chamam de anjos da guarda. Esses são difíceis de ser valorizados. Na verdade a gente tende a desprezar os que estão sempre disponíveis e a gostar dos que dão trabalho para conquistar. Deve ser um tipo de esquizofrenia disfarçada.
Mas felizmente esses “anjos da guarda” não desistem facilmente. É só prestar atenção que eles insistem em nos proteger, disfarçados em diferentes pessoas.
Outra coisa estranha é que esses homens violentos podem ser verdadeiros anjos em outras situações. A mistura entre um homem com tendências a violência e uma mulher com tendências a provocar e incendiar a violência é muito perigosa.
Evitar essas misturas perigosas e procurar uma mistura mais harmônica é, talvez, o que muitos chamam de iluminação ou bom senso.
Lá pelo dia 10 de todos os meses chegam esses DARFs e guias de recolhimentos de impostos.
Quando calculo o quanto tenho que pagar de impostos me dá um calafrio. Na verdade chega a ser onde eu mais gasto. E isso só contando com os impostos diretos. Os indiretos que pago nos produtos que consumo, prefiro fingir que nem existem.
Agora, com a crise, o Governo, sabendo que pagar imposto é muito doloroso, adiou algumas datas de pagamentos. Deram mais uns dias.
Uma coisa que eu nunca consegui entender. Eu dou uma nota em um mês e, normalmente, só vou receber no outro mês, se der sorte, muitas vezes recebo depois de 60 dias, então porque o imposto tem que ser pago já no próximo mês ?
Parece meio obvio que alguma coisa está errada. O imposto deveria ser cobrado das empresas 2 meses depois de emitida a Nota Fiscal, no mínimo. Isso tiraria alguns encargos de financiamento de impostos que muitos empresários têm, que fazem os produtos ficarem mais caros e menos gente consumir.
Bem, esse é um ponto, o outro fico imaginando se não seria melhor se o Governo ficasse com a menor parte do meu dinheiro e não ao contrário. Hoje ficam com a maior parte. Se Deus só pede 10 %, por que o Governo tem que pedir mais ?
Uma pessoa empregada paga tantos impostos que se eu fizesse uma conta rápida, nos últimos 10 anos já teria juntado dinheiro suficiente para comprar um apartamento, só com o dinheiro dos impostos diretos pagos.
Mas veio a crise e como toda crise pode ajudar a abrir os olhos de algumas pessoas.
Espero que os Governantes entendam essa crise como oportunidade para diminuir os impostos e aumentar os prazos de pagamento.
Antes de falar sobre a irmã do coronel, vou contar um pouco sobre o casarão :
Nem sempre foi uma pensão ou cortiço. Aliás cortiço é uma palavra que os moradores odeiam, preferem chamar de pensão. Mas na verdade, verdadeira, é um misto de cortiço com favela.
A própria rua João Teodoro, onde fica o casarão, tem uma história complicada. O bairro da Brás não tinha nenhuma ligação oficial com os lados da Luz até meados do século 19. Foi o Presidente da Província (atual cargo de Governador) Teodoro Sampaio quem incentivou a abertura das conhecidas rua São Caetano e rua João Teodoro que ligavam o atual bairro do Bom Retiro, Luz e Barra Funda com o Brás e Mooca. Antes disso toda ligação era feita pela rua do Carmo (atuais Rangel Pestana e Celso Garcia).
Com isso as ruas ganharam moradores ilustres. Alguns fazendeiros que queriam ter suas casas próximas a Estação da Luz, mas principalmente alguns comerciantes e industriais.
Não eram casarões gigantescos como os do Bairro de Campos Elíseos e nem palacetes como os da Av. Paulista, mas casarões familiares com grandes salas, cozinhas no quintal, alcovas sem janelas e banheiro lá nos fundos. Os construtores eram conhecidos como "capomastri" que eram mestres de obras italianos.
Tornou-se uma região muito prospera. Mas com o tempo as ruas foram sendo asfaltadas e os rios canalizados, que geraram grandes enchentes em meados do século 20. Assim os moradores ricos foram abandonando os casarões desvalorizados, deixando para alguma irmã ou filha solteirona que alugava os quartos para ter alguma renda extra.
Com a morte da última proprietária de um dos casarões, lá por 1990, alguns inquilinos foram tomando posse dos casarões e transformando todos em verdadeiros cortiços irregulares. As grandes salas foram divididas em 3 pequenos quartos. As alcovas foram transformadas em aquelas famosas : vagas para rapazes e moças. O banheiro continuou lá na parte de fora da casa e a cozinha cada um fez a sua própria no seu canto, muitas vezes um pequeno fogareiro feito com latinha e mantido com álcool.
O quarto da Marialva já havia sido a grande sala de jantar. Um lugar central da casa. Usado para receber visitas e com um forro todo detalhado em gesso e uma pintura feita por um mestre pintor italiano muito conhecido na época. Um pouco dessa pintura ainda pode ser vista, apesar de muitas mãos de cal já terem sido passadas por ali e marcas de pequenos incêndios nas paredes e teto também serem muito comuns. Ah, já ia esquecendo : uma parte do quarto não podia ser habitada porque uma infiltração tinha feito com que uma parte do teto, do forro e até do piso de madeira apodrecessem. Então a grande sala tinha sido isolada com paredes construídas com retalhos de madeiras e um canto era tomado por um buraco por onde a chuva passava, ali, bem pertinho da cama da Marialva.
Pare se chegar ao quarto, antiga sala, tem que se passar por várias outras portas. E um corredor meio escuro. Na verdade nem o dono da casa (na verdade ele não é o dono legal do imóvel, mas se considera dono), sabe quantas pessoas moram ali. Talvez umas 30 ou 40.
O quarto tinha sido construído para abrigar 6 pessoas, mas as amigas da Marialva resolveram dividir apenas em 4. Quer dizer : tinha, além das 4 moças, o pequeno Mel (filho da Marialva) e o pequeno Roberson (filho de uma das colegas de quarto) as outras meninas também tinham filhos, mas ou as crianças moravam lá no norte com as avós ou tinham sidos levados pelo Conselho Tutelar.
Pode parecer um lugar meio estranho, mas a Marialva e o Mel eram bem felizes ali. Tinha televisão, água quente no chuveiro, água para lavar roupa, mas secar tinha que secar dentro do quarto; muitas vezes as roupas eram roubadas se ficassem esquecidas no varal ao sol. A Marialva tinha até um truque : estendia roupa no varal, quando fazia sol, e ficava ali fazendo as unhas dos pés das amigas. Isso ela tinha acabado de aprender com uma outra colega. Até conseguia ganhar uns trocados com esses bicos de final de semana livre.
A Marialva se destacava muito entre as moradoras do casarão. Nunca arranjava encrenca com ninguém, ajudava alguns doentes, não era gastadeira e até ajudava a organizar alguns mutirões para arrumar alguma coisa no casarão. Uma verdadeira mocinha de novela. Eu já devo ter dito que além de tudo ela era bem bonitinha e falava tudo certinho. Só não vou dizer que ela era loirinha e de olhos claros porque isso seria forçar muito, mas era quase isso.
Uma coisa que todos no casarão tinham ficado gratos a ela foi quando ela ganhou umas caixas de azulejos brancos e usou para revestir o Box do chuveiro. Ficou muito bom. Nem dá para acreditar como um pequeno detalhe desses melhora tanto a vida das pessoas. Alguns que nem eram de tomar muito banho, passaram a usar o chuveiro só para ficar um tempinho ali, no lugar mais bonito da casa. De vez em quando o chuveiro era roubado. Uma chatice que demorava para ser resolvida. Afinal nunca descobriam quem tinha feito e ninguém queria colaborar para comprar um novo. Até que alguém aparecia com usado, que surgia de algum lugar suspeito, e colocavam lá.
Morar com mais de 30 pessoas na mesma casa não é muito fácil, principalmente se são pessoas estranhas. Mas o sentimento de comunidade ia crescendo conforme mais gente bacana como a Marialva ia chegando. Para os moradores do casarão era sempre triste quando alguém bacana ia embora, já que as pessoas bacanas acabavam mudando dali por não agüentar algumas diversidades e acabavam ficando só as mais tranqueiras do que os legais. Uma pessoa legal que tinha resistido no casarão por mais de 20 anos era a dona Consuelo.
Essa era uma pessoa muito especial lá dentro. Ou contrário da irmã do coronel ela era uma pessoa muito querida. Engraçado que em toda novela é sempre assim : tem um mocinha bonitinha, uma mulher muito má, um garoto irresponsável, um mulher muito bacana - quase uma vovozinha querida - e aqueles safados que aparecem só para atrapalhar a felicidade de tempos em tempos.
Bem, está novela parece que não está conseguindo fugir dessa fórmula, mas no próximo domingo conto mais sobre a dona Consuelo e da incrível coincidência da sua ligação com a irmã do coronel.
Quando surgiu esse negócio de "quick massage" nos shopping, alguma coisa não pareceu certa. Afinal massagem é para ser feita em lugar calmo e tranqüilo. Mas o negócio pegou de um jeito que agora já tem "quick massage" até em feira livre e eventos com milhares de pessoas. As pessoas recebem uma rápida massagem ali, no meio de todo mundo. Eu, hein !
Andam tentado fazer com que os serviços de atendimento ao público ( os horrorosos telemarketings ) a virarem "quick" , mas se você ligar para qualquer um deles, seja banco, serviços de assinatura ou um desses que têm aqueles famosos disque 1 para...disque 2 para...fica mais para o "slow"do que para o "quick", detesto essas coisas, vou direto para a altenativa 9 ( falar com de nossos atendentes ) , infelizmente falar com o atendente não significa que a coisa será mais fácil ou mais rápida.
Daqui para frente talvez a gente comece a ver dentistas, médicos ou até aula de inglês no meio da rua. Bem, agora é esperar para ver até onde vai.
A fórmula já é bem conhecida : muitos velhinhos falando de suas memórias. Mas não tem nada de óbvio nesse filme.
Você tem vontade de chorar com a música e com a emoção dos músicos o tempo todo. Um deles diz que o Tango dá um tremor no peito e se você não sente isso, deve mudar seu interesse.
Um grupo de músicos, cantores e cantoras que nas décadas de 1930, 40 e 50 fizeram muito sucesso em Buenos Aires. Os passeios pela cidade já valeriam a pena o filme. E ainda fizeram várias gravações dentro das casas dos músicos, nenhum pareceu ser muito rico, mas todos muito felizes de ter a música como eterna companheira.
A fotografia do filme também é excepcional. Os depoimentos ficam fortes quando bem enquadrados. Os bastidores com uma câmera quase flutuante. Parece que você está lá no estúdio junto com eles.
No final a grande apresentação no Teatro Municipal de Buenos Aires. Magnífico. Como os argentinos podem ter um teatro tão melhor que os nossos ? Como eles conseguiram ser tão elegantes ? Bem, perdemos feio para a elegância dos argentinos. Mas nada é motivo para tristezas nesse filme. Só as delícias da boa música tocada por gente que muito apaixonada.
Café de los Maestros. Brasil/Argentina, 2008. Direção: Miguel Kohan. 100 min. Não recomendado para menores de 12 anos.
O Multi Show costuma ter uma programação meio ruim, mas um dos programas, Hora do Intervalo, é muito bom. São propagandas para televisão de vários paises. Algumas são muito boas. As de cervejas européias são minhas favoritas.
Ainda não consegui entender porque em um lugar como o Brasil, onde o consumo de cerveja é tão grande e temos até a maior empresa do mundo produtora de cervejas, ainda temos esses comerciais horrorosos e machistas de cerveja. Claro que quem mais consome cerveja é homem, mas acreditar que tem ligação entre bunda de gostosa e cerveja é muito simplista. As propagandas européias também focam no público masculino, mas com muito mais humor e mais respeito pelas mulheres.
Publicitário brasileiro adora ficar dizendo que ganharam esse ou aquele prêmio. Só que as agências estão cada vez mais produzindo ou importando umas porcarias que dá vergonha.
Aquele comercial do Glade tanto do carro como do banheiro dá vontade de quebrar a televisão. Atores ruins, direção ruim, luz ruim, roteiro ruim e isso só pode querer dizer que o produto é ruim também. Nunca vou comprar essa coisa. Mas insistem tanto, passa tantas vezes em todos canais e até no rádio, que um dia, quando eu estiver distraído fazendo compras é capaz de eu acabar comprando só pela força da repetição.
Outro chato é aquele do Consórcio da Porto Seguros nas rádios. A mulher diz para o marido arrastar os móveis para pegar alguma coisa numa gaveta. Depois o locutor justifica que está na hora de comprar um apartamento maior. Eita propagandinha chata.
Foi um daqueles dias em que não tinha nada na geladeira.
A preguiça de sair para ir ao supermercado ou a feira é muito grande. A decisão de não pedir pizza é imperativa. Só resta tentar fazer milagres com o que sobrou na geladeira.
Cheiro verde ainda tinha, tinha cebola, cream cheese, um pedaço de abóbora e berinjela. Sal e azeite sempre tem.
Parti a berinjela em 2. Fiz um buraco, tipo canoa. Fritei a cebola, depois a abóbora, o miolo da berinjela e o cheiro verde. Até ficar bem cozido.
Coloquei de volta na berinjela e cobri com o cream cheese. Antes de rechear coloquei um pouco de azeite na canoa. Enrolei no papel alumínio e deixei no forno por 15 minutos, depois abri o papel e deixei mais 5 minutos para tostar.
Ficou muito bom, mas não sei como consegui sujar várias coisas na cozinha para fazer isso.
Essa história de pratos fáceis é tudo mentira, pode até ser fácil de fazer, mas a louça para lavar depois é uma chatice.
Mesmo assim, com toda louça para lavar, vou tentar comer mais vezes em casa. Agora mesmo vou ao supermercado abastecer a geladeira.
E o menino foi crescendo no meio daquela bagunça, mas como quase toda criança, parecia bem feliz por ter vários amiguinhos por perto.
A Marialva, ex Gilda, não dizia nada para o menino sobre seu passado. Não só pelo medo que ela tinha do sogro mas também porque temia que o menino puxasse as tendências do avô, pai dela. A, sim, dele ainda não falamos quase nada. É certo que ele morreu em um acidente com o trator na fazenda do coronel. Mas antes de chegar a fazenda ele morava em outra fazenda, lá pelos lados de Pernambuco. Isso ele nunca contou muito bem. Mas diziam que ele tinha saído fugido de lá porque tinha matado um homem, só que isso ninguém nunca ficou sabendo direito. Ele não contava e nunca tinha apresentado ninguém da família dele para ninguém. Quando perguntavam alguma coisa sobre seu passado ele sempre dizia que os pais tinham morrido quando ele era criança e os irmão tinham migrado para o sul deixando ele com uma tia velha que já tinha morrido. Um viajante, que passou pela fazenda uma certa vez, desmentiu a história. Disse reconhecer o Jacinto, ele não usava mais esse nome tão pouco, dizia que seu nome era Manolo; mas o viajante insistia em dizer que ele era o Jacinto e que lá pelos lados de Pernambuco as pessoas andavam a cata dele. Mas nunca chegou a dizer muito bem a razão dessa busca. Só disse que o Jacinto tinha pai e mãe bem vivos e até uma meia dúzia de irmãos por lá também.
Ficou por isso mesmo, mas a mãe da Gilda contou que quando conheceu o Manolo ela estava namorando outro rapaz. E o Manolo encarnou nela como carrapato. O ex namorado não gostou nada da história e foi tirar satisfações. Foi aí que o Manolo ou Jacinto se revelou violento. Deu uma surra no coitado que deixou o infeliz todo quebrado. A família do enfermo resolveu se vingar e armou de pegar o Manolo numa emboscada e surra-lo até a morte. A mãe da Gilda já andava com vontade de sumir daquelas bandas e resolveu avisar o Manolo da emboscada.
Os dois juntaram uns trapos e fugiram assim que anoiteceu. Foram de cidade em cidade, de fazenda em fazenda.
Trabalharam uns tempos em uma outra fazenda de um outro coronel. Nessa época os filhos já estavam começando a surgir como coelho.
Não demorou e o Manolo arranjou outra briga. Matou o sujeito a pauladas. Tiveram que fugir as pressas outra vez. O pai, mãe e os três filhos mais velhos. A Gilda já andava nessa época e já entendia mais ou menos a situação.
Foram parar em outra fazenda. Um tempo a mais e mais uma briga. O homem era estourado. Qualquer coisa partia para briga e depois de matar um, fica fácil matar mais um. Mas dessa vez ele não matou por pouco. Os outros homens apartaram, mas não sem antes quebrar feio o ombro dele com uma paulada. A, isso acalmou muito a fera.
Passou um tempo se arrastando pelos cantos com muita dor e foram morar finalmente na fazenda do coronel, pai do Joel.
Na fazenda tinham uma casinha e parecia que as coisas iam melhorar para toda família. Nessa época já eram 5 filhos e a mãe da Gilda já estava grávida de outro. Uns dias depois de nascer o irmão mais novo da Gilda o pai bebeu umas e outras e foi trabalhar com o trator. Não se sabe muito bem como aconteceu, mas parece que ele caiu do trator e a roda passou por cima dele. Morreu na hora.
A, foi um horror. Afinal ele era briguento, batia na mulher, ops, tinha esquecido de contar isso também, mas a mãe da Gilda tinha sido criada por um pai violento, irmãos violentos e mãe submissa. Nada conseguia espantar essa mulher que achava que apanhar do marido e ter um monte de filhos era o destino de qualquer mulher.
A Gilda já não acreditava nisso. Ela e as primas, que moravam na mesma fazenda, faziam planos de serem diferentes. Não queriam seguir o caminho de suas mães. Bem a Gilda começou mal, mas ainda sonhava com o futuro melhor.
Ela sonhava em estudar e ainda fazer seu filho chegar até a faculdade. O menino já estava completando 2 anos e ele mesmo já tendo atingido a maioridade, resolveu manter a identidade da prima, já que não poderia mais voltar atrás. O menino estava registrado com nome da prima, todos os documentos dela já eram em nome da prima e na verdade ela nunca tinha contado para ninguém que o verdadeiro nome dela. Mas resolveu mandar para a mãe um endereço de correspondência. Não era o dela, era de uma amiga do restaurante. Ficou com medo do sogro.
Foi uma grande felicidade receber notícias da fazenda depois de dois anos. A mãe quase morreu de angústia nesses dois anos o irmão de 16 anos tinha partido para o sul para ver se encontrava a Gilda, estava perdido pela cidade. Nunca mais tinha mandado notícias para a mãe. Ele era meio analfabeto, não era chegado a escrever e nunca mais ninguém ouviu falar dele.
O coronel e a esposa sempre perguntavam por notícias da Gilda. Queriam saber do neto de qualquer jeito. Já que o filho, Joel, tinha morrido em um acidente de carro na capital. A, isso deixou a Gilda muito triste. No fundo ela sempre sonhou que o moço fosse vir busca-la.
Não demorou muito e a irmã do coronel foi procurar a Gilda no endereço de remetente da carta. A amiga que já estava instruída disse para a mulher que a Gilda tinha ido para uma cidade de praia ali perto.
A mas a mulher, irmã do coronel, não era de desistir fácil. Ela queria recuperar o menino de qualquer jeito.
No próximo domingo eu conto um pouco mais sobre essa mulher horrorosa.
Imaginar que amigos morrem é uma coisa muito difícil de acreditar.
O ano passado começou bem triste para mim. Logo no dia 2 de janeiro meu ex-funcionário e amigo, o Junior, foi assassinado com um tiro na porta de um bar, bem pertinho da minha casa. Fiquei evitando a mãe e o pai dele por um tempo, só para não me detonar em lagrimas. A mãe me encontrou um dia na padaria e foi uma choradeira. Não tive como fugir. O pai, quando eu o via de longe, desviava só para não falar com ele. Mas acabei encontrando com ele sem querer na rua. Eles moram bem perto da minha casa. Foi encontrar com ele e ele logo começou a chorar. Eu saí correndo para não explodir de tristeza.
Depois mais para o meio do ano, outro amigo morreu de over dose. Outra tristeza sem fim. Ele era bem amigo lá por 1987. Depois começou a vender maconha e ficar estranho. Da maconha passou para cocaína e logo foi para o crack. Não deu outra, foi preso, internado e passou fome na rua. Um dia apareceu na minha porta vestido de mendigo e todo machucado. Ajudei com pude. Mas depois de 6 meses ele morreu na rua. Fiquei sabendo por acaso quando encontrei outro amigo que tinha ficado sabendo pela irmã dele.
Mais para o fim do ano foi o Jean, morreu com 3 tiros na porta de um banco numa tentativa de assalto. Foi outra tristeza sem fim. Outro com a mesma idade que eu e tínhamos feito aquele exame de renovação de carteira de motorista na mesma época. Só que ele não estudou e não passou. E eu nem tive tempo de gozar da cara dele. Morreu no dia seguinte baleado. Eu tinha umas fotos dele aqui no meu computador e apaguei num dia triste.
Agora, começando o ano, minha amiga Márcia foi atropelada por um ônibus enquanto andava de bicicleta na av. Paulista. Houve uma homenagem ontem na rua, já que ela não queria nem velório e nem enterro. O corpo foi doado para faculdade de medicina.
Não gosto muito de chorar pelas pessoas que morrem. Nem fui ao enterro de nenhum deles. Prefiro pensar que elas foram para outro lugar e que estão melhores lá do que aqui. Essa história de que tudo acaba e vira nada, não é comigo. Apesar de detestar quase todas as religiões, prefiro acreditar, como as religiões, que as pessoas vão para um lugar bacana, que evoluem ou que terminou o tempo delas por aqui e vai ter outro tempo de outro jeito em outro lugar.
Mais triste é saber que o assassino do Jean não foi preso, que o assassino do Junior foi preso e fugiu da cadeia, que o crack que matou o Paulo continua rondando pelas ruas e que o motorista de ônibus que atropelou a Márcia não será punido.
Parece que a gente fica um pouco mais velho e mais fraco cada vez que morre alguém próximo. Hoje estou num desses dias, que nem deu vontade de comer.
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