Conversa com Pardal da Saudade
Pardal – Boa tarde minha gente ! Tamo aqui para fazê um repenti.
Pássaro – O cobradô tá animado, o cabelo tá caindo mas o resto tá subindo...
Pardal – Essa aqui tá de calça preta, eu já vi ela passá lá na Tiêta
Pássaro – Agora minha gente, o show já vai terminá porque o fiscal acabô de entrá.
Pardal – Se não podê, não precisa pagá...mas deixa o celulá
Pássaro – Seu motorista, o senhô é um cara legal, quando eu virá viado a gente vai namorá.
Pardal – Seu cobradô, muito obrigado, não tenho como pagá, se o senhô quisé passa em casa e pega minha mulé
Pássaro – Rapaz simpático, se não pode ajudá deixa a mulé
Pardal – Quem quiser também estamos vendendo nosso CD, é só 7 real.

DF – vocês ficam fazendo show nos ônibus o dia inteiro ?
Pardal – a cidade toda! de Guarulhos até Interlagos
Pássaro – desce de um e pega outro
DF – e quantos CDs vocês conseguem vender ?
Pardal – uns 50 por dia...trabalhando o dia inteiro
Pássaro – você viu, nesse que você tava deu para vender 4
DF – e de dinheiro em gorjetas, quanto que dá por dia ?
Pardal – tinha que dá uns 200, mas não chega nisso todo dia
DF – 200 ? 100 para cada por dia parece bom !
Pardal – parece ... mas tem que alimentar a família...a mulher dos outros... conta de luz, água...
Pássaro – e filho pequeno só dá despesa
DF – vocês têm quantos filhos ?
Pardal – eu tenho 2 pequenos, um de 9 e outro de 8
Pássaro – eu tenho 4 ! A mais velha tem 16. Quer ser veterinária. É inteligente que só ela.
DF – E sua mulher, faz o quê ?
Pardal – a minha agora tá de licença do trabalho, tá esperando uma coisa dela lá...
Pássaro – a minha faz café de camelô, faz correria do rapa todo dia
DF – quem vende café na rua, eles pegam também ?
Pássaro – virgi!? Já tomaram mais de 8 garrafas dela. A coitada chegou a ter pressão alta na rua.
DF – e ela não consegue fazer um esquema com o Rapa ?
Pássaro – só dá para fazer esquema quando o Rapa vem sem a polícia. Se a polícia tá junto ...eles levam tudo.
DF – ah, o Rapa tem medo da polícia ?
Pássaro – só sei que quando a polícia tá junto não tem conversa, quando o Rapa tá sozinho eles querem caixinha.
DF – e onde vocês moram ?
Pardal – em Paraisópoles. Conhece ?
DF – conheço, sim. Lá é casa própria ou aluguel ?
Pardal – a minha é aluguel, 300 por mês. É com 2 cômodos e quintal grande
Pássaro – a minha é própria, mas a prefeitura quer colocar a gente para fora.
DF – como assim ? você não tem escritura ou não pagou o IPTU ?
Pássaro – eu comprei...é um barraco...era, agora é de tijolo, mas quando eu comprei era de madeira, na favela. Agora todo mundo construiu de tijolo. Mas a prefeitura está ameaçando tirar todo mundo.
DF – você já falou para eles que você comprou o barraco ? o que eles disseram ?
Pássaro – eles diz que recibo de mão não vale. Como não vale se eu comprei e paguei com dinheiro? Quando saí da firma, recebi o fundo e comprei.
DF – devia valer recibo de mão. Então você tinha em emprego e saiu para ser músico ?
Pardal – eu vim de Pernambuco e já era músico aqui. Nem dá para arrumar emprego, hoje eles querem que tenha estudo e eu tenho baixo grau de leitura.
DF – baixo grau de leitura ? como você consegue escrever as músicas ?
Pardal – a gente não escreve nada, é tudo de improviso.
Pássaro – eu só sei escrever meu nome, mas só em letra de mão boa. Se deitar um pouco a letra...não dá para ler.
DF – e vocês fazem show também ?
Pardal – já fizemos no Brasil inteiro, já viajamos por tudo. Tem gente que chama para fazer evento.
DF – ah, é ? como encontram vocês ?
Pardal – tem meu celular 9236-2815
DF – e como vocês escolhem o ônibus para pegar ? tem algum segredo ?
Pardal – a gente só pega ônibus novo! Os pau velho fazem muito barulho e estouram tudo a garganta de cantar alto.
DF – é boa estratégia. E os motoristas sempre deixam vocês entrarem sem pagar ?
Pardal – ah, eles sabem que é nosso trabalho...
Pássaro – vamos nesse, vem com a gente. Entra pela porta de trás...pode vim, o cobrador é pernambucano...